“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

domingo, 9 de julho de 2017

Burnt

I might have been broken
Everywhere one can break
I may have been lost
At all places and causes

There is this flame
That keeps on burning
All the losses and pieces
I solemnly carry
Till I no longer fade

Many are the things
And faces
Brought from the ashes
So many wishes bursting
As I look above
Knowing there won't be time

There will not be time
For I have been gone
All the times I have been held
I have said goodbye
In worlds of spoken language
And milion more silent words
That still remain

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Senescência

Mais uma tarde
Ouvindo minhas canções de inverno
E lembrando dos outros dias
Iguais a este

Algum dia frio
Alguma coisa muda
Ou talvez
Eu seja todo inverno
Só

Quem é que faz o caminho
E dita o desencontro
Qual é o final do teto de estrelas
Em que descansa o seu olhar

A essência desses dias
A lenha dessa estação
São todas coisas belas
Que ficaram
E nem sempre serão adeus

Mas por enquanto
São coisas perguntadas
Depois, esquecidas, dormem

E as horas azuis da estação
Escurecem devagar

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sopro

Eu tinha certezas antigas
E memórias perfeitas
Que não diziam nada
E nem davam adeus

Hoje não vejo os olhos
Buscando o que perderam
Antes de me encontrar
Não sou o som
Tampouco a imagem
A coragem faltando
Ou qualquer espécie
De salvação

Finalmente, faltam palavras
Resta o meu corpo jogado
Em um canto novo
Onde a história
Nunca foi sobre esperar

A herança da estação passada
Prevalece
Ergui o mais sutil segredo
Da parte do seu ego
Coroei minha fronte
Como rainha do fim
Sobrevivo crua
E permaneço exata

Se a marca de ontem
For demais
E você não quiser ver
Quão pequeno o restante
Não será surpresa
Se tivermos um último final
Do discurso insosso
Entoado aqui

Eu costumava declarar
Tudo pela metade
Hoje sou inteira
Do que me arranca o juízo

Se você não falou mais alto
Ou nada quis dizer
Hoje o segredo é outro
E o medo é estúpido
Como o vento sem força
Soprando você até aqui

Amnésia

Pra onde vai
Tudo o que se perde
No vão da noite
No breu da dúvida

A fumaça sob a luz
Escreve no ar
O perdão e a memória
Exalam nostálgicos
Desprendem a lembrança
Exausta, adormecida
Do canto da mente

Como um esboço sem fim
É a prática do esquecer
O começo é o medo
De perder o que dói
E não sentir de novo
Qualquer resto de céu

Até que o cansaço aumente
E nada mais se escreva
E as coisas perdidas
Descansem
Desmemoriadas

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Posse

sento à mesa
e estou farta
torno a casa
viva
e estou morta

sóbria
sinto outras mãos
que acariciam o ego
e mexem as bocas
sem som algum

ébria
vejo outros rostos
colados ao meu
e outras luzes acesas
outros lençóis
e emaranhados de adeus

prazeres custam
um tanto de mim
que não posso pagar
tão caras as paixões
sem nome ou face
pilhando o que é único
e nunca se dá

ouço o querer
querem os meus ouvidos, olhos
o amparo em meu cabelo
e o corpo entregue
não me satisfaz

querem os meus passos
e o mapa que sigo a desenhar
o ouro guardado
a ilha que habito
tudo o que me faz
é a única moeda
que não posso trocar

sou só
e insana
e tão sórdida
tudo que me faz rica
é invisível
é o que todas as noites
e todos os homens
querem roubar

mas os ladrões desconhecem
os mistérios da minha dor
a distância viva em mim
a frieza da memória
e o gosto amargo do adeus

possuem o corpo
as palavras
minha vontade e meu êxtase
acordam ao meu lado
e esperam que eu durma
e vasculham o quarto
marcam-me a pele
com as letras do nome
mas estou farta
e sempre só
a minha única posse
é a certeza
em começo e fim

Veloz

Já não importa muito
dentro da morada
em que as coisas se tornam escuras
e antigas

Não importam os abraços
os pedidos
as promessas
e as amarras
são sons abafados
são mentiras breves
que continuam caindo

Não vejo nada
além da pressa
e das imagens borradas
quando corro
já não preciso parar

 A verdade é uma
e eu nunca pude domar
todos os meus fantasmas
tampouco ensurdecer os sons
e os chamados de outra voz
eu nunca pude voltar

Tanto a contar
sobre as visões
e as tristezas que vieram
em ondas fortes
e me tragaram como revolta
e me fizeram naufragar
mas a escuridão é um mundo
feito de força
e os meus gritos brutos
são como pedido

Peço por sombra
e por fôlego
e que o mar seja feito
depois de atravessado
que eu nade
alcance outras terras
morra na praia
ou enlouqueça na ausência
e nunca me encontre
no mesmo lugar

Que eu veja outras horas
chegada a hora de ir
e reveja meus velhos amigos
e enfrente velhos medos
e marejados, os olhos
que continuem correndo
devorando o caminho
movendo as montanhas
e sendo maior
que o próprio tamanho

terça-feira, 27 de junho de 2017

Monumento

Desde outro dia
Que finjo não recordar
Visto o mesmo manto preto
E arrasto meu peito oco

Dia após dia
A dor perde o fio
E encontro-me aqui
A amolar a memória
Um corte exato
No mesmo lugar

Mesmo sendo o meu peito
A pedra a refazer o fio
Já não amparo
o que escorre de mim
Na esperança de que
Depois do fim
Venha o vazio

Todas as horas repetidas
Deixam o mesmo recado
Por mais que eu segure
A mesma mensagem
Os mesmos dois gumes
Seguem cortando
A linha que trilho
A pontiagudos passos

Eu não quero falar da ferida
Tampouco abrir minha pele
E exalar o que eu vejo
Por dentro dos olhos
Ainda assim
Noite adentro
Desafio cada soluço
A ser mais forte que eu

Resisto ao silêncio
Curvada sob a estátua
Que ergui sem saber
Fiz-me uma com o chão vermelho
No endereço da ausência

Pedra sobre perda
Ergui o que sustenta
Todas as derrotas
Até que nada se perca
E a lâmina dos hábitos
Enferruje o passado

sexta-feira, 23 de junho de 2017

3x4

Muitas coisas mudaram
E foram ser outras coisas
Pra outras pessoas

Meu quarto continua
 eu continuo
Imersa em alguns fantasmas
Talvez me falhe a fé 
Na existência do que permaneça

Talvez tenha sido
Enquanto eu tinha sono
E repousava em ser breve
Enquanto rapidez era a única arma
Contra as ausências no caminho

Talvez você tenha resistido
Quando perdi a razão
A razão era a sombra
Do caminho errado
E a história era dia

Muito do que se conhecia
Acabou
Amanheceu sepultado
ou memória a escorrer
Dos olhos de alguém

Não tenho fotos
Ou cartas antigas
Sequer um cartão
ou outro resquício
Da única vez
Em que de fato
Eu me perdi

Só me serve essa cama
o teto a lembrar
Do que eu senti
Continua no quarto
(E no âmago) 

Talvez essa coisa
Jamais vá ser outra
Além do mistério suspenso
Mirando meu sono
Desde que as outras coisas
Exatas ou sádicas
Deixaram de ser o que eram
E me encontrei aqui

Cronômetro

Sentava com as estrelas
Quando ouvi uma canção
há muito esquecida
Vibrando no escuro

As cordas invisíveis tocavam
E a cada acorde
O som mais antigo
Que a alma há de conhecer

E o céu era parte da música
Que passava
A noite era parte do som
Que passava
E as cordas vibravam como o tempo
E diziam
Que sempre estiveram ali

Todas as rugas no rosto
E os passos no chão
A minha frente
Enquanto eu pensava que essa terra
Era pó
Toda essa estrada sozinha
Cabia e cantava em apelo
E pedia aos meus ouvidos que ouvissem
Implorava aos meus olhos que vissem
E que todo o corpo vivesse
O que acontece aqui

E sem motivo para o agora
Espio pela fresta de todos os perdões
Da morte da pressa
Do dilúvio da dor
Só existem cordas e estrelas
E o mistério revelado
De ocupar todo o espaço
E ouvir o som do destino
Golpeando o ar

Ouvir o tempo pintar uma tela
E traçar como aviso
A paisagem de amanhã
Como se oferecesse propósito
E me dissesse
Que o eterno segredo da vida
É encontrar e salvar
O que há a ser salvo

As cordas vibravam e viviam
A assistir
Enquanto os meus joelhos
Curvaram
E meus olhos fecharam
Enquanto eu fui rio
Como que dizendo
"Eu sou a corrente
E sempre estou aqui"

Nunca achei
Nada do que deve ser descoberto
Ou tive respostas certas
É impossível chegar na hora
Quando o encontro não foi marcado
Eu sempre corri
E o destino não era meu
Como o traço que rabisco
Ou o seu nome que escrevo

Nenhuma das coisas que toco
Pertencem a mim
Tampouco essa lágrima
Tampouco essa ausência
Ou essa certeza
De que as cordas que vibram
Sempre estarão aqui

Todos os dias dancei ao som
Do meu próprio destino
Abraçando cada tropeço
Que me leva
E me diz
(Em verdade vinda voando
Como quem traz o que falta):

"Tudo virá
E o que importa
Está aqui"

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O sol

Já havia dor antes
E outras noites claras demais
Mas todos os antes
Parecem tão rápidos
Desde que parei aqui

Se existe algum sentindo
Em perder a razão
O preço é alto demais
Se o erro e a culpa
Forem o meu reinado
Então a dívida é eterna

Em cada pedra da minha coroa
Em cada espinho no meu arranjo
Em cada adaga pulsando em mim
Respira em uníssono o seu peito

Ainda sorrio
Dentes tortos e alma sombria
Eu sei da parte minha que resta
E ninguém adivinha
Aonde mora minha paz

Não sei aonde olhar
Quando abri todas as janelas
Em busca desenfreada
Esqueci que o sol era seu

Aceitar o que viesse
Sempre foi um hábito
Porque eu nunca tive certeza
Até inventar seu rosto
Nesse desvario
Enorme como o vazio
A perda era uma lei
Nunca questionada
Até que dissemos adeus

Agora,
Todos os dias são perguntas
E quanto falta
E aonde foi
Cada parte sã

A dor era um lar
Um teto em que eu dormia
A herança da minha família
Mas quando algo resiste
Os olhos nascem de novo
E dentro do seu olhar jurei assistir
A vida começar

E o que a fé nesse caos
Faz noite adentro
Une todos os santos
E infernos
Por onde eu passo
E renasço toda vez
Que digo adeus

Em cada palavra
Em todas as linhas
Descrevo não saber
O que difere de tudo
O restante da história
O infinito em cada pergunta
O vazio em cada segundo
Quando lembro de você

Fog

As perguntas que eu faria
Ecoam como grito
E o arrepio da hora
Sabe ser tarde
É receio, enfim
Não encontrar o caminho
De volta
Ou pra fora daqui

A minha velocidade
Sempre borrou a visão
De algo maior
E me salvou desse abismo
Eu teria pulado
E a neblina mentia
Como a sua língua

Não mereço a verdade
Ou a raiva
E a causa se confunde
Com promessa nenhuma
A razão era outra
E o segredo de nada valia
Como prova de afeto

Eu não sei
E por não saber
Minhas mãos apoiam a face
Em pálido desespero
Antigo e apático
Como a pergunta e o relógio
Que não para de gritar
O tempo fala
E por mágica ou maldição
Tudo mais faz silêncio
Quando surge a sua voz

A sanidade perdida
A fé que se esvai
Não existem pedidos
Não faço desejos
O que procuro
Jaz intacto
Em algum lugar longe
Numa terra inteira
Desde que parti

terça-feira, 20 de junho de 2017

No vento

Talvez eu já soubesse
Que você não viria
Ou que ninguém chegaria
E andaria pela tormenta
Quando é preciso ter força
Algumas coisas desaparecem

Quando olho pra trás
Vejo os pingos de um passado
Que não para de chover
As nuvens e trovões distantes
Rugindo em despedida
Talvez a minha força
Tenha sempre sido
Uma história de adeus

Quando se tem toda certeza
E se envia todas as cartas
Resta o raio que parte
A saudade na garganta
O peso nas pernas
Impedidas de voltar
Restam as luzes na estrada
Como um bater de asas

Talvez eu já soubesse
Antes, depois ou enquanto
Houvesse você
A partida seria como espera
Sempre prestes a chegar

Ainda que eu implorasse
Por tempo e por pouco
O meu começo é o céu
Paixão alada ao vento
Quando é preciso viver
Meu instinto é voar

sexta-feira, 16 de junho de 2017

De cor

é uma sina óbvia
que todas as minhas mentiras
ganhem vida
e me provem o mesmo
todos os dias

a cidade fantasma
do quarto vazio
da taça sob a mesa
da fome sem fim
nada se ouve
além da incerteza
no chamado dos nomes

aqui não são ditas coisas bonitas
mas toda a realidade
como brasa na pele
imprime uma marca
além da chuva e do olhar
que cisma em vagar

aqui toda a culpa se distribui
em partes iguais de agonia
como sempre deve ser
o teatro dos erros
numa cortina que nunca cerra

não cessa jamais
essa sensação de futuro
é como um abraço sem remetente
uma prece sem voz
uma certeza sem sim,
ausentes o limite e o não

são razões óbvias
as pelas quais
o vazio permanece

todas as mentiras decoradas
de coração
contadas uma a uma
até que voem como abraço
ou pairem no destino
desmanchando meus hábitos

e como o verão
da minha insanidade
principiem algo a mais
e sirvam como razão
e selo
das minhas mentiras
endereçadas a mim

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Fogueira

hoje o que ecoa em mim
é o desejo de explodir
com o que ficou
de amor e resto
das palavras de nós dois

atear fogo ao quarto
queimar a sombra
e o silêncio
os lençóis e o gosto
mas até as cinzas
falariam do que foi

eu quero falar da raiva
por nada nunca mudar
quero escrever a cena
durante todo o tempo
em que a música tocava
assim eu veria
mais uma vez
todas as noites

eu iria embora
ou nasceria de novo
trocaria essa história
por qualquer minuto
em que não existíssemos

não há paz
depois de tudo
ou início
ou por onde começar

perderia tudo
pra acender a luz
e queimar o caminho de volta
mas mesmo no escuro
eu correria longe
até o tempo que passou

tudo o que vejo é fogo
e todos os toques ardem
em ausência e culpa
em verdade e fim
 eu lamberia em chamas
 qualquer outro som
 falando de adeus

 ainda e sempre
sigo incendiando
qualquer estrada
que não leve até você 

Salvação

sei que repito
a mesma agonia
até que eu encontre
desculpa ou vazio

mas o desejo maior
persegue o momento
em que eu não vi
em que todas as coisas
perderam o equilíbrio
caíram cegas
enquanto eu dormia
e perdida,
amava o que sufocava
e era o meu sopro de ar

se um dia estive
além da beira
desse precipício que chamo de lar
você estendeu as mãos
abandonei meus próprios pés
além da recusa e do corpo
caminhei ao encontro
do seu caminho

se nessas memórias
o mar das minhas histórias
atentasse o meu fôlego
e afogasse a minha força
o seu rosto seria barco
e suas palavras o vento
nas ondas e cinza
sempre a me salvar

Beleza, manto e segredo.

É como algo que nunca muda
um dia que não acaba
o sol virando lua
uma dor insone
um sorriso eterno

uma hora no relógio
a vida olhando as horas
um abraço repetido
até caber no sorriso
até morar na memória

uma marca impressa
ou a ruga no rosto
um adeus mudo
que nada quer dizer
para as almas o encontro é um só

um canto de aleluia
solitário, une todos os sopros
da vida e da perda
em todos os lábios
sem tradução

uma tela a exibir
essa glória não de outros
mas de todos os tempos
em que houve a comunhão
da alegria confessa
em estar aqui

puro, agradece
como criança, não dorme
quando é a hora explode
em mil cores e formas
enraizado, multiplica
(num zelo tão antigo,
nato e sagrado)
e dos seus próprios frutos
 renasce.

(O amor é uma história contada em segredo
até que floresça em jardim
é, no íntimo de si, fecundo e sereno
em tudo que toca, está
a todos enxerga iguais
mestre de todo destino,
por ironia e ausência de acaso
jamais encontra descanso).

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sobrevida

As coisas que dizemos
Ao cerrar​ dos olhos
Dos lábios
E do som
Perduram

Entre duas vidas
Que nunca dizem adeus
Sobram dúvidas
Que repetem
E como espelho
Devolvem a vista
Mas não revivem sonhos

Tudo o que eu sou
Veio da memória acesa
Pela coragem dos seus passos
Hoje distantes
E sempre inconsequentes

Se eu não acreditasse
Jamais saberia
E seguiria o mesmo rumo
Você levou o que era raso
Mas tocou muito mais
A sua ida é verdade
Que silêncio nenhum anuncia

Algumas histórias
São feitas de paz
Algumas outras
São apenas vazias
De luta ou de glória
Talvez nenhuma sobreviva
Mas vivem, todas,
De toda e qualquer maneira

[Amor nenhum
Pede trégua
Enquanto fala]

Par

Pelo caminho
Vejo dois corpos
Impressos como estátuas
Caminham ou dançam
O limite dos lábios, impreciso
Perdem-se em saudade
E a fusão das almas
Vira pó
Desintegra-se num segundo
Como o tempo que passou

Nada proclama a graça
Com que cessa a existência
Dos amores eternos
Palavra nenhuma descreve
A cor da chama que queima
Depois do fim

Separam-se as mãos
E mais nada se dá
Todos os ecos
Em todos os ares
E vazios no mundo
Anunciam
Serão os corpos
As mãos
Resquícios do tempo
Poeira ao vento

Os lugares mudaram
Carregam agora
As partículas deixadas
Confusas e miúdas
Como cinzas ao mar
Dos dois corpos que ali ficaram
Por nunca mais
Serem os mesmos
Tampouco poderem voltar

Sombra de outrora no chão
Nascem todos os dias
Ardem por todo o luar
Até que nada reste
Senão a imagem desfeita
Pairando estática
Sob os postes
Iluminada e invisível
Na calçada do mesmo lugar

domingo, 11 de junho de 2017

Sobre poetas

Nunca estou em casa
meu lar são as palavras
ainda por vir.

É uma agonia íngreme
dar luz a uma parte de si
que se acostumou ao breu.

Qualquer alma anseia
por chegada
qualquer que seja esta
e por destino,
mas eu (por teimosia
ou amor à solidão),
vivo em uníssono com o destino
e até a exaustão com a jornada.

 Sim, esta alma é uma eterna
ânsia
e uma péssima mentirosa,
encantada por natureza
e invariavelmente,
perdida no tempo.

Enquanto alguns carregam,
relógios de bolso,
ou em pulsos,
a minha maldição é desobedecer as horas.

Enquanto escrava de meu próprio rumo
meus únicos horários
são as intempéries,
pontualmente atrasadas,
sempre cobertas de razão.

A minha alma é senhora
de si e de tudo o que a toca
Mas meu corpo (por eterna desobediência)
e corre ao vento,
nu e jovem,
cresce e jamais envelhece.

 É um começo de saudade
que oscila, insano,
por toda a tristeza
correndo alegre quando diz, irreverente
o que os lábios não podem.

Um misto de doença,
que nunca decide por ficar,
grita por nada
e insaciável, percorre memórias
da coragem ao vazio
permanece estarrecida
com o vício em reviver.

Nunca satisfeita,
tudo inquieta o olhar,
enquanto houver silêncio
e vindas de lugar nenhum,
restará algo
ainda por dizer.

Segredos

Quando todas as coisas que fiz
forem lar
não contarei sobre o que ficou
serei o céu e as estrelas
o teto e o abrigo
que parti a buscar.

São infinitas as vozes da alma
e suas sinfonias,
tão sutis e secretas
tocam todos os ventos,
sopram todos os dias,
reveladas no ar.

As escrituras do tempo
não escrevem a tinta
são lei
estão em cada espaço
e cada parágrafo em branco
é como uma vida perdida
escrita, em tempo, em mim.

O cansaço é maior
em um céu azul
e a sala empoeirada
é de poucas palavras.

Aqui, tudo já foi maior
tudo já foi.

É como passar os dedos
por uma carta antiga,
como ter preocupações inúteis
e atribulações inférteis.
 
Os pensamentos são de outrora
e o amor é velho e enrugado
como alguém que perdeu a hora
e resolveu descansar
aos poucos
e cada vez mais
deixado para trás.

O silêncio atesta
as mesmas coisas
desde o começo,
do que se quis dizer
e agora,
a bagunça feita repousa,
até que, tão tola,
alguém a encontre
ou a desculpe.

Quando eu calar
é que nada terá restado
junto a mim,
um sonho
e um segredo a cada lado,
a metade sagrada em adeus
e o perdão selado em encontro.

sábado, 10 de junho de 2017

Mães

Eu lia tranquilamente quando ela adentrou a sala com pressa, emitindo susurros zangados. Enquanto guardava as compras e tumultuava minha leitura, ela era ainda a mesma mulher que me ensinou a ler. As mesmas mãos que arrumavam a sala como um furacão e por pouco entornavam meu café, eram as mesmas mãos que haviam recebido esse mesmo livro há anos atrás. Nesse exato momento, como em todos os sábados, ela desenterra fotos e panfletos e cartas empoeiradas e as exibe como um tesouro a mim, que as encaro repetidamente como quem vê um tesouro. Há sempre, sempre, algum detalhe novo no sorriso de minha avó.
Guardadas as fotos, começam os sons do fogão, carregando as dores dessa vida que vemos passar. Ela é ainda a mesma alma, jovem e agoniada, fragmentada em mil formas de adeus.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Finais

Somos cegos para a hora do adeus
E desesperados por uma saída

Todos os castelos são feitos
Das mesmas pedras
De torres que desmoronam
Todos os dias

Continuar é uma jornada
Refazer os próprios passos
É a revolução
E a prece no escuro
De uma luz que se apaga todos os dias

Histórias breves são caminhos
E escrevem recados
Mas a parte maior vence
E sempre encontra chegada
Em tantos outros lares

Vagamos sempre em busca de fim
Desfechos e espaços e pontos
Sem saber da parte acesa e viva
Queimando como verdade:

Vivemos
Intermináveis.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peça

até se seu soubesse como chamar
esse algo que me consome
seria um problema dizer
sobre o meu apego
a tudo que resta

se eu visse outro olhar no retrato
ou seguisse outras estradas
se eu corresse menos perigo
talvez estivesse inteira

eu sempre sei
quanta saudade vou sentir
quando sem traços ou volta
enxergo algo adiante
que já não existe aqui
sempre soube
que a minha morte
seria o momento
em que eu visse sempre
algo novo em você

perdi os limites
e não disse toda a verdade
e o que eu virei
depois da última vez
é exatamente tudo
que já aprendi

eu disse
e de novo estive lá
e não sei como chamar
a certeza no seu nome
mas o lugar não é o mesmo
e o encanto não cessa
de todas as formas
essa parte que eu não tinha
nunca seria tudo
ainda assim
eu nunca soube
quem é você


Sobre perceber

Existe um lugar
Para o que é coberto de razão
Descoberto em segredo
Prece em segundos
Nas noites sem fim

Quando falo de luz
Sei do tanto que brilha
E na escuridão, algo que arde
Como chama
Como nome
E outra voz

Existe além das linhas
E da memória insone
Alguma fonte pura
Um detalhe ou esmero
Que segue por si
E às vezes por mim
Como que pra lembrar
Que acredita em algo bom

Dentro de algum canto
Algo guardado e contido
Quando tudo mais
Revela vez ou outra
O fim de algo que importa
Eu pareço ter muitos finais
E poucas, tão poucas memórias
Fazem morada e discurso
Falam alto e mudam o tom

Enquanto sigo
E ando
Eu desespero
E sei que o desespero
Não é triste
É uma espera pelo que se sabe
Pelo que eu sinto
E não posso ver

Não há nada de errado
Com esse adeus
Nesse tempo em que tudo segue
A andança é o rumo certo
Quando o que surge é passado
Resta assumir o que fica
Confesso ser essa a hora
Em que deixo de esperar

Vez ou nunca as histórias pairam
E é possível ver na poeira
O desenho do fim
Talvez não haja razão
Pra ficar

Dos detalhes

Tanto ainda vai se perder
Nessas ausências e temporais
Nessa visão de estar sempre
Aonde se quer

Tão longe é o destino
Quando andar a esmo
É carregar essa falta
E as promessas
Que ninguém cumpriu

Tanta espera
O amanhecer é cheio
Dos espaços em olhos perdidos
Em uma busca além do olhar
Que por vezes é bruta e finda
Tarde, tão tarde
Insiste em recomeço

Ainda muito é óbvio
Durante a noite
Enquanto durar
Essa saudade
Essa parte dormente
Lembra sempre de mim
Do pedido de sempre
Mesmo sem querer
No silêncio que continua

Ecoam tantas palavras
Não ditas e talhadas
Na parte de fora
De tudo que não se viveu
Iniciais de um nome
Lâminas nas mãos
De quem nunca disse adeus

terça-feira, 23 de maio de 2017

Souvenir

Você pode rezar
e andar sob as chamas
e clamar nomes
que diminuam o seu passado,
o seu tamanho,
e essa sensação esmagadora.

Pode dizer,
milhares de adeus
e culpar muitos dias
em que uma parte sua
pareceu perder
algo seu.

Mas você não saberia
consertar essa cena
e juntar os cacos
sem se cortar aos pedaços.

Você não tem culpa,
nem voz,
ou razão.

O seu orgulho e seu zelo,
 e essa cautela sem fim
são chão
e os passos do ego
não levam a lugar algum.

Tanta andança
sem destino algum,
um rosto que não se mostra
e uma boca que não fala
um corpo cheio
de términos pela metade
e segredos guardados.

Quantas histórias tristes
pra poder enfim,
parecer feliz.
Quanto receio herdado
e conselhos óbvios.

Você pode tentar
fazer as mesmas coisas
e ceder a mesma quantia
de nada além,
 levantar e deitar-se
e viver até cansar.

São tantas as faces da morte
E do mesmo erro
Num duelo perdido e anunciado
Não há o que ou quem
Força ou treva ou tamanho
Não há o que exista ou ameace respirar
Caminhe ou nasça nesse chão
Não há o que sobreviva
Ao soar dos sinos e tiques das horas
A fio, a esmo, ainda ou agora
O tempo há de levar

Querer

Sobre o tempo que perdi
enquanto fazia sentido
de uma memória que se faria comum,
uma noite vivida,
um amor ordinário.

O meu maior desejo é sentir medo,
mas em algum lugar perdido
deram-me coragem demais.

As camas em que deito,
os lugares que visito,
são sombras dessa minha eterna
ausência de rumo
e vontade de pavor.

A necessidade do vazio
e de tudo mais que não me perturba
reflete as mesmas
paixões fracas
e destinos errantes.

A minha cicatriz é a força
em fugir dessa mesma vida.

Ao inferno com o acaso
e o juízo,
mereço os dados,
e esse caos que cisma
em dar as cartas.
Perco e blefo,
morro de orgulho
e de outros pecados.

Ao inferno com a coragem
que você não tem,
com essa necessidade estúpida,
essa certeza insossa,
uma vida parada.

 Se eu for o incêndio
desse passado que não morre,
sou a prova viva
do efeito da fúria,
da arma que fere e pulsa
incessante,
deseja sempre mais.

sábado, 20 de maio de 2017

Um dia

Queria sentar ao seu lado
Não em um dia como o primeiro
Quente e perdido em verão
Mas em um dia
Em que se contam
Segredos antigos

Em um banco
Em algum lugar
Nesse cenário sem vida
Eu diria a verdade e faria frio
Quando os erros
Se descobrissem
Tempo perdido
E a falta
Sentida de uma vez
 Pra nunca mais

E todo o silêncio
Viraria uma​ página
Num conto maior
Agora,
Uma única palavra
Habita essa parte que ficou
E continua pedindo
 Desculpa

Mas eu queria sentar ao seu lado
Num banco perdido no tempo
E ter espaço pra dizer
Como era sentir medo
Até percebermos
Que nada mudou
Ou até sentirmos
A hora passar

Mentira ou verdade
Eu sinto muito
Por acreditar
Que jaz perdido e eterno
O que seria dito
Se eu fosse sentar ao seu lado
E o que seria feito
Se eu ficasse

Divisa

A minha ruína é essa mania de escrever. Escrever o que sinto, vejo, penso, essa coisa de querer no papel uma foto minha, capturada em palavras nada sensatas. Talvez assim pareça real, talvez assim eu não tenha escolha senão encarar a insensatez. Quando percebo a falha em minha escrita, enxergo o quanto de mim já foi enquanto eu acenava em adeus.
Ando pela mesma antiga estrada ignorando a sinalização. "Pare","perigo". Preciso de alguma coisa que continue, da velocidade, do escuro, de algo que não pare sem que eu faça parar, porque o meio do caminho é cruel e ecoa a fraqueza que me trouxe até aqui.
O meu fim é precisar falar quando queria algo que simplesmente fosse, sem palavra ou desculpa, algo que só acontecesse, existisse, estivesse ali. Mas enquanto as minhas palavras forem tão passionais e descuidadas, nada se define. Retratar essa imensidão exigiria um limite e escrever é minha única fronteira. É aonde sou só, inexata, cansativa, interminável. É como se eu nunca esgotasse, como se repetir a minha teimosia fosse apenas gentileza​. Escrevo e escrevo e escrevo, até que eu encontre forças, até que meus pecados pareçam amor.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Chances

se você me disse a verdade
então
não há grito suficiente
se o que existe em você
é o que eu vi
 só existe esse mar
em que nos deixamos
em despedida
afundar

mentiria mil vezes
diria estar bem
mas existe sempre
no escuro
as linhas da carta
as marcas no corpo
e algo maior

e uma pergunta
flutua pela noite
e se eu acredito em você
então
não há tempo suficiente
só existimos os dois
nada mais é próximo
além da memória
desejo
e do começo

e uma chance
batizada em suor
reconhecida em adeus
se você tem vivido
a mesma história
então
sonhamos
o mesmo
e velho
sonho

terça-feira, 16 de maio de 2017

Aprendiz

as malas feitas na soleira da porta
ninguém havia vindo pra ficar

as lágrimas no quarto
e ainda, as risadas na sala
todas as ironias do destino
toda a raiva atirada
ao acaso

algumas lições
 se fazem aprender
outras tecem um plano
e o cuidado de uma vida
é bordado no escuro
até o raiar do dia

nem sempre tive medo
mas chegada a hora
todo olhar regride
e eu voltaria outra
e por outras
tantas vezes

os sons da casa
eram altos e baixos
e sempre graves
entre todas as dores
o perdão falava baixo

as horas do adeus
eram mentoras das mãos
e do rosto
e a minha língua dizia
todas as coisas certas

quando me diziam
de tudo um resumo
e me entregavam tenros
as cartas da vez
tudo era o que poderia ser

 incontáveis histórias
incansáveis ditados
ouvidos sem prazer
ou desgosto
ouvidos em vão

quando me deram motivos
irrompi em festa
eu tive razão
e ninguém provaria o contrário
estive vazia e oca
e certa
como o que eu via
em todo rosto
em qualquer lugar
 
até que me deram flores
e eu dizia que flores não eram
algo a se dizer
eram cor e cheiro
e não havia tempo
mas eu não via que destruiria
qualquer cor ou palavra
em qualquer boca
senão a sua

já não sabia o que fazer
com cores e cheiros
e coisas dadas
ou como acreditar
em algo que não leva
ou não destrói nada

 [eu estive errada]

algumas lições pairam no ar
e esperam o momento
em que tudo desaba
sem peso ou alento
passada a hora
coincide o olhar

quando pedi desculpas
 o fiz sabendo
que já estive do outro lado
quando tudo era sutil
e inerte

tudo era encontro
e nada se encontra
algumas lições
são tarde demais.

sábado, 13 de maio de 2017

Um dom

o meu sonho
é uma estrada livre
de ar puro
e um vento soprando só

um caminho qualquer
será bonito
será em paz
se estiver escrito
todo em mim

a descoberta é maior
que a história da morte
a fuga de ontem
as sensações dormentes

entre repetir e acordar
não há sabedoria
apenas força e medo
apenas o que cala
e a parte que segue

meu sonho é um momento
em que todo "eu"
seja um tanto invisível
e permita algo além
novo, infinito
nessa eterna ida
que depende dos próprios passos
e sobrevive de si

a alma anseia
pela ausência pura 
no dom da solidão
até que nada mais exista
 somente um sonho inteiro
 uma vida que nunca pare

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Rendição

o que nasceu de nós
chuva e terra
que não semeia
voz e prece
tudo o que cai?

joelhos ao chão
nada permanece
vivo quebrada e serena
como o que vive
sem vida alguma

um suspiro que liberta
a rendição
isso é o que resta
quando os olhos vêem
a outra face?

um pedaço de nada
um beijo de adeus
palavras e muitos
muitos anos
sem força
silêncios doentes
de culpa e desejo

o que fica
quando as cenas
já vistas
e o sangue que escorre
  são mais do mesmo?
a mesma fonte que não corre
apenas repete o que quer dizer

até quando a razão anda distante
de quem não sabe de si?
uma bandeira estendida
anuncia o triunfo
de quem nunca esteve aqui
espadas e bainhas
e sussurros malfeitos

é inteiro o fim
quando nada se divide
nem a noite ou a luz
o som que ecoa por nada
é o que fica
quando nada mais está
sem luta ou trégua,
desmemoriada,
a mente íngreme
 descansa

 a paz
nunca é algo feito
mas o encontro em caos e em vão
e não essa ideia que segue em partida
nunca esse toque de recolher
sem honra e demora

é som que soa em desgraça
alguma coisa finda
descoberta e horrenda
a coragem exata e rota
que escancara a alma
e destrói a razão

não estende bandeira alva
ou bandeira alguma
é o que não se vê
ou ficou pra depois

é em hipótese ou lei
fatal, imensa
e segue ilesa

a paz é o solo coberto
de história e poeira
o fogo em espécie
a herança de força
bruta e fugaz

é quem veio e tomou a pulso
qualquer coisa que seja
pelo simples ato
em fazer de si um tanto mais
quando há algo a dar

não é o grito
ou a volta pra casa
o pedido ou o perdão
tampouco o atalho dos fracos
ou o banquete dos covardes

é um cemitério de adeus
que ecoa num banco de igreja
uma vela que apaga
os anos em prece
um véu negro estendido eterno
uma praga na carne
o suspiro no escuro

é o contrário de toda essa febre
do abandono da terra infértil
em que nada cresceu

 fruto do que é contrário
a paz jamais se rende

sábado, 6 de maio de 2017

Hábito

Todos querem saber o que é amor. Amar alguém é sentir falta de estar em paz por tempo indeterminado? É uma agonia em passar a sentir qual a parte faltando em si? Devolvo a pergunta. É preciso saber de amor? Se eu te disser que feche os olhos e pense em alguém, você saberá o que é amar. Saberá exatamente aonde foi e aonde dói. O amor é uma jornada, nos leva pela mão e nem sempre nos guia. O amor é desenfreado. É embarcar em algo que não parece com nada, é fechar os olhos com aquele rosto pela primeira vez e saber que fechar os olhos nunca mais vai ser a mesma coisa. É entender que não importa o quão distante você já tenha ido antes, é preciso embarcar, é preciso ser próximo de algo, de qualquer maneira torpe e problemática. O amor é cheio de manias, de falhas. É feio e tímido, é bravo e inconveniente, é insuportável e não fala absolutamente nada na hora em que mais se precisa. Sabe por que? Porque tanto tempo é perdido tentando definir um querer, um padrão, um o-que-é-isso, que o normal é esquecido. Querer alguém quando você abre a porta de casa, lembrar de alguém enquanto você faz café. Aquela saudade excruciante que cai na cama como algo muito pesado, aquele sonho lembrado só depois do almoço...O amor está aonde encontra morada. Nos lugares simples como os atos que repetimos todos os dias, enquanto distraídos. Se a forma de amar é a forma como se vive, amamos repetidamente e distraidamente todos os dias. Se for como ler o jornal, ir ao trabalho e voltar pra casa, o amor nos pertence desesperadamente. Em quem você pensa enquanto lê um livro? Quem está com você enquanto o elevador demora a chegar? Quem é que faz silêncio em qualquer lugar?
Feche os olhos. Pense em alguém. O amor é simples, não é pergunta, não é resposta, nunca é óbvio. Aonde você está? O amor nunca é distante, é o que está sempre lá e talvez sempre tenha estado. Abra os olhos.

Nada

me lembro da música
que tocava no quarto
e da meia luz
em que eu vi
a vida passar
nos seus braços

estive lá
quando você era silêncio
e pedia mais
e tinha medo

quando sentamos a mesa
éramos jovens
e inquietos
eternamente
insatisfeitos

quando deixamos
de ver os nossos olhos
algumas coisas
ficaram
como os seus ombros
e o som
de não respirar

mas tudo
tudo
lembra
estar em casa

 quando tudo foi dito
sobram sonhos
e milhares
de adeus
e pedaços de coragem
e outros dias
e outras vezes

mas nada
nada
parece ser
o quarto
e a noite
 e o fim.

E poucos anos

outros já disseram
do meu jeito de ser
solto e fugaz
a minha insensatez

já esperei
por limites e horas
mas vivi a tona
eu sempre soube nadar

recusei as juras
nunca me enquadrei
ou andei por onde
era claro
ouvi da minha surdez
e dos males
em ser sem mapa
e sem lar

hoje
faço as malas
e as pazes
com o fim

sei do que é exato
e além
noites e noites
vivi e brindei
os goles errados

agora
parto e sem demora
conto o tempo
em que aprendo
a correr
e a contar
o que passou

não falo o idioma
em que se diz adeus
mas traduzo
sem parar
essa saudade

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O monstro

Existe uma lei
em todos os universos
do amor e do ódio

Com a boca
devora a tudo
e consome todos
os corações inertes

Com garras
rechaça o tempo
e rasga  o peito
que não pode esperar

Protege e respira
e aguarda

Existe uma hora
a soar em todos os sinos
e bater nos ponteiros
Uma hora que sempre
sempre chega primeiro

Com seus ponteiros
agulhas e farpas
ferem e ficam
Pois não existem olhos
que enxerguem
os meros
os mínimos
maravilhosos detalhes

Sem som,
seus minutos, segundos
Caminham e correm
e somem
Sem destino
Levam todos
e lavam os olhos

Repete e anseia
e aguarda
 
Existe uma lei
na hora em que tudo diz
"Agora"
Um eco no ar
Que abre os cílios
E os braços

Com sua insensatez
jamais se curva
E arma nenhuma abate
o seu riso
Cruel
e de vontades
superiores

Festeja
e seus banquetes
nunca matam a fome
Cansada e alerta
Corre a destruir
o que estiver no caminho
e fora do lugar

Exibe, afiada
os dentes
e insana
aos passos pesados
fareja
pela cidade

Há uma lei
em tudo que é
dentro e fora
de nós
Que retorna cansada
e suja
e se abriga
entocada e escura

Seremos
e deixaremos de ser
quando algo maior
e pior
fizer de nós
o que vem depois

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rogado

quem é você
nessa história pouco escrita
nessa música breve
nessa memória crua

o que é que escreve
o que vê
quando cala sereno
diante do que falta

qual foi o momento
em que todas as falas
desistiram
e eu morri

o que moveria
os seus lábios
o que atesta
essa ausência

a visão do adeus
e das minhas costas
ainda é vista
alguma hora

quem você é
e quem desistiu
de mim
qual parte sua lutou
ou se eu nunca guerreei

se me salvou
ou ao menos esteve aqui
se fecha os olhos
e a sua paz
é tão grande
como o castigo
dos crimes que cometi

se é cansaço
ou lucidez
a demora com que se fez
tudo antes do adeus

quem sou eu
o que ficou
o meu espaço
se ainda habito
brechas
ou imensidão


qual é o sustento
quanto do silêncio
é prova de amor
ou falta de coragem

quem abriu esse espaço
a punho
ou a ferro
e cortou um caminho
em mim

do que você é capaz

Planeta

eu esperei por você
e de nada serve
a minha palavra
cheia de tudo
como o vento
que te carrega
leve
tão longe

muito não entendi
mas você foi a maior
morte
e é morrer
não saber
se você é fraco
ou forte
ou como leu
as minhas palavras
se ecoam
como o meu pesar
dentro do mundo
que dividimos

não posso pagar o preço
desse silêncio
não posso ficar aqui
e ainda estou
consumida
e desacreditada
irremediavelmente
aqui

eu queria ser bruta
queria ser forte
já não posso ser tola
tampouco rica
das artimanhas da fé
eu tropeço
e não chego ao chão
se chão houvesse
eu estaria aterrada
nessas coisas suas
que cobrem a vida
e a luz

eu sou uma sombra

o que adianta querer
já não possuo nada
e durmo
e acordo
e creio
desgraço-me
mais e mais
a olhar o céu

eu queria voltar
pelo caminho que percorri
antes de tudo ser perfeito
já que continuas sendo
o melhor
no que é bom
silencias tudo

o que é o vento
perto do que levas?
o que é a madrugada
quando tudo para
frente ao seu rosto?

não há volta
não há céu
ou vento
ou noite

existe apenas o que eu vejo
e o que não é

paira no ar
perfeito e exato
rarefeito
eu respiro
e não existo
no seu universo

domingo, 30 de abril de 2017

P.s

Enquanto eu escrevia
Sobre você
Muita coisa mudou.

Os meus cabelos brancos,
A minha falta de horário
Eu fui ausente de tudo
E morri de medo.

Enquanto eu dizia
De nós dois
E do que continua
Eu perdi o rumo

Deixei muito pra trás,
Mas você sabe
Da parte minha
Que não existe
E que errou
E quis acertar

É esse problema
Do que é muito cedo
Quando não há tempo
Algumas coisas morrem
Sem prazo
Ou aviso

Eu queria a sua vida
E disse tudo
Mas agora,
Eu sei da espera
E do que não pode esperar

Planejei os detalhes
E pequei em excesso
Em querer demais

Um dia falaremos
Do que foi muito
E talvez lembremos
E faremos
Um milagre

Pode ser
Que tudo
Não tenha passado
De um sonho

Talvez tenhamos
Amado demais
De maneira ou outra
Você é uma prece
Que fiz quando tudo
Parecia acabar
Você é começo
E resiste
Ao tempo
Você nunca se atrasa
Sempre na hora
Sempre em mim.

Correspondência

Você mudou a minha vida
A minha inconstância
Minhas palavras

Quando eu só sabia continuar
E ser mais forte
Você falou mais alto
E renasceu
Tudo o que eu era
E havia perdido
Tentando crescer

Amar não é certo
Não é ajustar um relógio
Que não diz as horas
O amor é caótico
E se encontra
Perfeitamente
No momento errado
Debaixo de chuva

O amor incomoda
E envelhece
Sábio
Vive o que pode
E esgota as possibilidades

Sabe,
Eu já fui mais só,
Eu já perdi a fé.
Mas você,
Você é uma coisa nova
Dessas que só existem
No folclore
Eu não queria isso
E eu nada tinha de querer

Na minha loucura
E nas horam que não passam
Eu sou pequena.
O meu pranto não conta
O melhor lado
Que vive em você.

Eu esqueci algumas coisas
Quando saí com pressa
Queria muito dizer
Que você foi tudo
Mas cheguei tarde

As vezes a hora passa
E só podemos contar
Com o fim
Talvez haja recomeço
E seguiremos pensando
No que seria bom

Nós não somos
Bons ou imperfeitos
Estamos cansados
E nos encontramos,
Exaustos,
No meio da multidão.

O encaixe exato,
A solidão.

É justo que sigamos sós
Sem saber
Da história
Sem sentir o resto?

Escrevi uma carta
Que continha o que eu disse
E um pouco mais
Exagerada e exata
Eu não sabia mas era
Uma carta de adeus.

No final eu te amava
E em todos os tempos
Sigo acreditando
Em algo
Além do fim

Sua,
Sempre.

Imortais

Somente dão voz
Ao que dói e respira
Os verdadeiros amantes
As histórias mais leais
Ao que habita a alma
E consome a mente

Como lâmina que adentra
O âmago
E ali vive
Eterna
Disseca todo o resto

Somente os que vivem
Com uma parte ausente
Sabem da vida
E dão luz a histórias
Humanas demais

Sabem que é possível amar
E seguir
Viver de um passado
Despedaçado
Ausente de si

Os amantes desvairados
Que entornam as taças
E lembram de tudo
E tatuam em vermelho
O que queima
E rouba
Tudo de si

Que descem as ruas
E assustam as famílias
E falam de algo
Secreto e intenso
E tão imenso
Que destrói o que é certo
Desafia as leis
Desfaz o tempo
Desconstrói a herança
E gasta a moeda

Aqueles que viveram
O que vive esquecido
E que lembram tudo
Quando se lembra alguém
Sabem mais
E debocham de tudo
Todo dia vivem
Tudo de novo
E doem como se nunca
Tivessem conhecido
Algo além do êxtase
Do segredo contado entre almas
Quando se ama alguém
Nada mais incomoda
Num corpo oco
No exílio de um amor que morreu

São histórias longas
Como um velório sem fim
Aqueles que amaram em febre
Não sabem enterrar
Dizem adeus todo dia
E já viveram demais
Como quem sepulta todo o resto
E não precisa de nada além
Daquele pedaço de tempo
Que existiu
Como nada mais existiria
Ou honraria a existência
Como o mais nobre segundo
Que não acaba jamais

Os amantes passados são ébrios
E isanos
E a única coisa que lhes toca
É falar do que arde
E como ninguém
Descrevem tudo com olhos jovens
E almas arcaicas
Que precisam ver o amor
Viver mais
Precisam ver lágrimas jovens
Que herdem deles
Algo que não seja vazio
De paixão e idade
De posse e entrega
Precisam contar
Que não existe nada
Além
Das almas trêmulas
Do laço do tempo
Do toque no escuro
E dirão pra sempre
Que o único ouro da vida
Vem do único valor
Impossível calcular
Da agonia em amar

Breu

Existem palavras melhores
E o que nunca poderei dizer
Não sei contar histórias
Só sei assistir o que passa
E de relance
Some de mim

Agonizo pelos dias melhores
Que passaram
E morrerão
Como memória
Do que nunca existiu

Como foto guardada em gaveta
Como o que se esconde em rancor

Existem linhas maiores
E falam de dentro pra fora
Que reconhecem a alma
E cantam canções
E falam infinitos idiomas

Eu não sei escrever
Mas queria contar o que vejo
Quando olho pra você

Eu não sei explicar o que ficou
E nem o que seria
Se eu soubesse chegar
Se eu soubesse nadar
Nesse rio que corre
Se eu fluísse
E pudesse desaguar

Eu desafio
Os maiores amores
A encontrar as palavras
Ainda assim eu diria
Nenhuma delas é lar
Sob o teto que erguemos

Mas eu não sei
E por não saber desgraço
Esse amor e a culpa
Por não saber eu sigo
E é infinito o olhar
Eu sigo olhando pra trás
Eu preciso ver o seu rosto
E imaginar o que seria
Se eu soubesse amar

Mas é segredo
O que sussura minha mente
E embrasa o peito
E cega os olhos

O que fala de noite
E faz meus braços abismo
Sangue
Poesia
Lembrança
Eu preciso do corte
Mas as palavras traem
Jorram as memórias
Noite afora
A ferida aberta, o silêncio
Amantes do escuro
sórdidos
sádicos

Não existe língua que fale
Ou traduza
O que vive em mim

De ouro

Sigo fascinada
Com o tempo
E seus ardis
Sob um sol que queima
E ilumina a volta
A todos os lares

Eu sei do meu coração
Que precisa crescer
E brilhar
Ser maior que os amores
Que a noite
Maior que a minha paz

A busca por um dia
Melhor ou pior
É uma jornada torpe
Maltrata o ego
Maldita a hora
Em que precisei caminhar
Mas no silêncio do céu
Encaro só
Os vazios e os tesouros
Que passaram
E continuam sem lugar

Temporal
Cabelos brancos
Longos
Sorrisos afogados
Jóias atiradas ao mar
Na esperança do tempo levar
O que não naufraga

No final de tudo
Nesse vendaval
Os olhos reluzem
E perdem de vez o fim
Os corpos e as almas
O tempo e o imortal
São pacto
De todos os destinos

Depois de tudo
Ao fim do caminho
Ainda há chance
De imensidão
Da visão do tempo
Do mais simples suspiro
De nada mais

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desde

todo o amor que desperdicei
carrego junto a mim
como a roupa que visto
todas as minhas mentiras
escritas em mim
como mapa
como a fome que sinto

não existe vida
depois desse caos
e todo dia
morro dos erros
e das ausências
na esperança que eu viva
ou sinta algo além
das ruínas
do chão que cede
ao fim do dia

já soube de gritos
e não acreditei
que alguém gritaria por mim
mas eu sempre ouvi vozes
e despedacei,
distraída,
o que era bom
mas na verdade
não era meu
e os destroços
do que eu não sentia
chegaram mais longe
 porque tiveram olhos
e a coragem
de todo o amor que não dei

e agora
nada do que resta
é algo em que se acredite
as horas falam
e tudo que vive duvida
de um lado meu
que esteja aqui

a prece termina
outra vez
sempre
sempre
em partida

Inconsciente

choro pelo vazio
pelo que não posso tocar
pelo que apaga
e fica entre o tempo
e a dúvida
algum dia
outra vez
são todos tons de adeus
o que existe não cessa
o que é agora não some
ficam perguntas não feitas
são corpos e vidas e histórias
que não vivem
pairam no ar
são muitos sonhos a acordar
muitas as ausências da mente
sem saber para onde
seguiram as mentiras
seguimos sem saber
como seguir

mesmo sabendo o caminho
as mãos não se tocam mais
tampouco o conjunto dos corpos
acalma o tempo
todos esqueceram como parar
vivo a me perder
por olhar demais as horas
por cansaço ou ingratidão
ninguém enxerga os caminhos
todos abandonaram a estrada
o que se vê
 antes de adormecer
o que dói
de olhos fechados
e percorre cada passo
e reside na própria pressa
 é o único destino
uma única jornada
a se abraçar
a dor é o encontro
de tudo o que foi
ou segue perdido
em todos nós

Cacos

sempre há algo falando mais alto
cortando a noite
como mensagem distante
algo novo e velho
como em sonho
 o que se reconhece

estão aqui no escuro
os sons que não pausam
cada uma dessas cartas
são pedaços de um vidro que quebra
e sem endereço é entregue
à  memória de um tempo
que nunca se esgota

são meus os estilhaços
e os sonhos que não falam
atiram-se e se sabem armas
contra a ausência que fica
 e o infinito renascer
de uma única prece
acesa em vela
de uma sombra na parede
do segredo nos lábios

 há uma voz em tudo
e uma única lei
a força presente
o reflexo da fé
esculpido em jura
a palavra dita
quando não havia fim
e tudo iria ficar

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Infância

As vezes resgato um amar
E peno num novo sofrer
E lembro tudo de novo
Quando o querer
Era sem consciência
Quando tudo era
O que parecia ser
Lembra do seu amor
Que me criou
Você me salvou
Quando não havia pressa
Você soluçava
Mas tudo era novo demais
Lembra das palavras
Que ensinaram o caminho
De volta pra casa
Ou pra longe de mim

Eu sei que fui ensinada 
a crer
Mas eu não vejo exatamente
Como é que acredito
Se já desisti
E peço perdão
De todo o credo e razão
Essa foi a última
E única
Que sobrevive
Esse adeus que vive em mim

Amor nenhum permanece
E essa talvez
Seja a mais bela e arcaica
Agonia
Nada se encontra
em amar e viver
Além daquele tanto que ficou
Enquanto só resta esperar

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eterna

não é sobre ter de volta
algo que era meu
eu sempre fui perdida
e atrelada a essa busca
fadada ao acaso

não é sobre encontrar
o rumo
ou qualquer outra coisa banal
eu nunca tive direção
ou história certa

não há muito que me acalme
ou o que eu sinta que posso ter
qualquer lar seria fútil
e nunca conteria
a necessidade que sinto
em deixar
coisas
espaços
pessoas
e vazios

qualquer teto estaria
entre o meu olhar
e o céu que eu preciso ver
o pedaço de nunca
eu preciso ter essa febre
eu não sei pertencer

dizem que a luz se faz
com o tempo
e a reza
mas não há cura
para esse lado meu
que não segue
e não ouve
outros caminhos
senão o que cisma
em perseguir

eu preciso perder
preciso morrer
dessas paixões que me bastam
preciso não ter razão
mas eu teimo
e até hoje não houve
jogo justo
ou verdade barata
que me tirasse de mim

como se eu pedisse quente
e ganhasse morno
eu não quero calma
e tampouco entendo
quem parou no meio do caminho
do meu caminho
como se eu quisesse queimar
e virasse fumaça
eu preciso sumir
até restar somente
o que me tira a razão

a noite toda
sonhei que estava aos prantos
mas me deram coragem
e péssimas escolhas
entre todas as coisas
que perdi e fiz questão
tudo o que destruí
e escolhi suportar
está uma mulher
 que habita o íntimo de si
e vive a carregar o que quer

a soma dos amores
e das quantias
não me fizeram rica
as letras e os calos
me instigam a perguntar
percorro
os próximos
 passos
amores
países

eu carrego a mulher
dos meus sonhos
e carrego os sonhos
sob meus ombros

entre o medo de ser
 e querer muitas coisas
há uma mulher que teme
e veste o medo
mesmo aos pedaços
sai de si
e de tão inteira desponta
 outra vez
faz-se viva


perdão

eu te amo
com toda a minha estupidez
e mania de dizer a verdade
a qual repito, tão óbvia que é
como a chaleira que apita no fogo
o armário bagunçado
como quem chega em casa no fim do dia

se o que me consome
é saudade
ou culpa
ou muito dos dois
pouco importa

agora tudo já foi
e nada descansa
ao meu lado eu vejo
a sua sombra
desde então não houve luz

eu tinha pulso
e a voz firme
de quem tinha aprendido
mas a lição era outra

eu tenho raiva de você
como que pra matar
o que ficou
mas a verdade é que eu te amo
com a mesma pressa de antes
e sem compasso algum

como se eu tivesse esquecido algo
 e não pudesse buscar
ainda que tivesse as chaves
não poderia mais entrar
e nada é maior que isso
na confusão de quem ficou

há uma parte minha
perdida por aí
que anda e sente
sem que eu não saiba
e nada mais faz sentido

eu sei que é adeus
e é tão simples
como o sol na janela aberta
e o café sob a mesa
como uma vida que passa rápido
e o emaranhado do tempo

perdão
é que eu te amo com a certeza
e o intuito
e com tudo que me é familiar
como quem espera um milagre
nesse caminho que não se perde
eu só sei continuar

terça-feira, 18 de abril de 2017

corpo e alma

vão-se as palavras
ficam as marcas

pele
e pesadelo
é como se eu não acordasse
ou não vivesse

viver com essa alma
insana e intensa
é o pior dos meus pecados
não sei nada além da entrega
e do que se repete
como se não houvesse memória
ou erro
ou depois

viver dessa alma
que não sabe caminhar
e corre a minha frente
e abraça o meu corpo
quando ele mesmo se encolhe
de medo
diante a agonia
em viver solto
e tão junto de mim

eu não sei
o tamanho do passado
ou se um dia virei a ser
tudo que aconteceu
mas amanheço nova
e amarga

se a minha dor durasse
e eu pudesse ver
o tamanho do estrago
talvez eu vivesse menos
e pudesse chorar
pudesse enfim
ir algo além
mas a alma flutua
e entende
impera
e pela tempestade
dos meus raios
corpo, alma
e trovoadas
voamos sem tempo
sem culpa
sem lar

até quando

Ocupo agora o meu inferno particular. Toda a minha irreverência se voltou contra mim, desatinada e furiosa. Sabemos nós duas, eu e a parte minha torpe e surda, que não podemos continuar assim. Não posso mais deitar, sair e beber como se fosse inteira. O curioso é que me apressei, quis calcular quanto tempo dura uma perda, desafiei a dor. Eu achei que eu fosse mais forte, achei que eu seria maior. Calculei errado o tamanho da queda - erro de quem nunca havia pulado antes.
Pois bem, a perda não dura, ela é. Sutil como a memória, lentamente leva tudo. É cruel como olhar as horas e não saber a hora certa.
Eu não tenho mais o que oferecer ao tempo. Não tenho mais barganhas, promessas ou pedidos. Tudo que tenho é essa vontade de desaparecer.
A certeza de que não há história a ser contada é pesada. Eu sei que não há caminho de volta enquanto essa memória existir.
Se você nunca tivesse existido eu teria uma chance. Mas você existe e existir não basta, você fica. A ideia que eu tenho, a roupa que eu tiro, a linha que escrevo. Você não está aqui e isso deveria ser suficiente, deveria ser tudo, mas é só o que eu repito a mim mesma. Você não está aqui.
A perda é o que permanece sem deixar rastros, uma prece sem fim. Não sobram vestígios que reafirmem minha sanidade. Eu quero sair, mas encontrar saída envolve a busca e eu não sei pra onde olhar. A perda é o alívio que eu sinto logo antes de perceber que você ainda está aqui. Abro os olhos e vejo o lugar em que eu não deveria estar. Você está aqui.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

muro

esse lugar vai ser um lar
ainda que demore
a se achar um retrato
um enfeite
demora recomeçar

se você não consegue dizer
ou gritar
alguma coisa que valha
ou mude essa ideia
da força que falta
 se nada se mexe
e você sabe
então
existe outro lugar
e os nossos lugares são tão distantes
eu não posso ficar
 
e não posso entender
ou não olhar
eu preciso ver
o que foi feito
dessa falta de tempo
e de força

como é que se força a verdade
pra fora daqui
eu quero outra mente
outro ímpeto
outra alma fácil
que não tenha coragem demais
outra razão
que não atenda a pedidos
ainda que se peça novamente
ainda com voz suave
outro amor banal
que não prometa nada
nunca
jamais

esse lugar vai desmoronar
eu não quero alguém que fique
tampouco um desafio
quero o que é inteiro
e sem medo do que é

eu não preciso de nada
e ainda assim
sou obrigada a provar
da taça que bebi ontem
e quebrei no escuro
do sono que já não sinto

construo ainda o lugar
posto abaixo
consumado no chão
não importa o tempo
ainda que eu vague
imperfeita
fadada a recomeçar

algumas coisas continuam
mas pedra sobre pedra
eu divido dois lados
até que algum ganhe
ou pare de tentar

além

todas essas linhas
me traem
e seguem rindo

riem porque sou tola
e demoro demais

agora as coisas
voltam ao normal
e pouco a pouco
algo se perde
e eu esqueço
o caminho
esqueço de andar

eu nunca fui posse
ou concordei
eu jamais obedeci
mas já não ouço
nem a mim

 eu deixo
as coisas
os olhos
pra trás
eu torno os traços escuros
esqueço de amanhecer
e de nada nunca me bastar
eu vivo firme
mas não quero mais ser forte

quero o que tire tudo
de novo
o que me prove errada
e destrua de vez
essa história sóbria
e morna

até que não sobre nada

chama

não é engano
é uma guerra
que dia e noite
se esgueira pelos cantos
se levanta pelas manhãs

é um mal que não se extirpa
a chama que não se apaga
todos sabem
aonde queima
e todos
seguem queimando

todos copiam
os caminhos
as letras
e se afastam
como nunca
porque não vivem
 e não vêem

quando na madrugada
o corpo se curva
e a alma envergada
se quebra em vazio
aí está a verdade
o incêndio

todos morremos de amor

sábado, 8 de abril de 2017

Chegada

escalei uma montanha
e no caminho
as coisas pareciam
feias
e maiores que eu

no meio do caminho,
a chuva e a distância
diziam com o vento
eu havia ido longe demais.

ao fim da viagem,
tudo era apenas início.
o céu era imenso
e ser menor que todas as coisas
era o maior alento

vi os abraços
e os sorrisos da hora certa
vi os ciclos
que se fechavam
e nunca paravam de começar
 vi o seu rosto
e eu soube

as milhares de estrelas
eram as preces
e infinitas
eu jamais poderia agradecer

enquanto eu deitava
à beira do que deixei pra trás
e do que já não é mais
eu vi as cores do adeus
e entendi o que não pude dizer
todos nós iremos
até que possamos chegar

abri as mãos
e soltei a parte minha
que eu não devia segurar
a viagem é longa
escura e vazia
e subindo a montanha
é possível sentir o peso
que não se deve, jamais, carregar.


"And love is not a victory march
And it's not a cry that you hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken Hallelujah"

Armário

Todos nós enxergamos a fraqueza nos outros, nas coisas, no silêncio, nos gritos. Mas vemos em nós mesmos tudo que abandonamos? Vemos todos os nós que deixamos de desatar? É tão simples esquecer os inconvenientes.
O problema começa quando é demasiado esquecimento. O caos surge e é tanto deixado pra trás que se torna verdadeiramente impossível rastrear o que incomoda. Os nós envolvem nossos pés e não conseguimos mais andar. Quando tudo dói, como se encontra o foco da dor?

Abracadabra

Por muito tempo estive só
E deixei o que era demais
Em lugar nenhum
A ser encontrada:
 A minha melhor fraude
O que eu dizia no escuro,
Nunca vivia em claro.

Eras e eras,
A mira era minha.
Até que me tornei
o alvo,
a queda,
o som do corpo
caindo ao chão.

A minha boca era mistério,
dizia os feitiços
em todas as línguas,
e de tanto maldizerem,
todos os meus encantos
tomaram o meu corpo
e deixaram- me oca.

Chega o dia,
encontra-se o que foi perdido
tudo o que se quebrou
toma forma.
O inferno de todas as dívidas.

Todos os meus amores
morreram.
Todos os meus feitiços
falharam.

Desfaço-me inteira
e só assim me levanto.
Ando de volta os passos dados
caçadora de mim.


"Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

sexta-feira, 7 de abril de 2017

the end

this is how it goes
distance only grows
apart
away
unbronken

no matter who you are
this is how you go
without saying
your mouth is goodbye
your soul is unbound

your smile is fading
still asking where you are
 what if you know less than me?




"Nobody broke your heart, you broke your own because you can't finish what you start."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ventania

Embora o esforço
Leve uma parte de mim
Em troca de silêncio
A minha prece continua
E meus braços constroem
O que quer que seja
O meu lar

Essas são as últimas horas
Do tempo que deveria passar
Embora a espera tenha sido
Cruel e cara
Eu nunca soube esperar
Sigo costurando 
A parte que rasga
Linhas, agulhas, promessas
Como eu puder reparar

Talvez eu tenha o dom
De desejar outro amanhã
E de querer algo 
Que soa exatamente o que é
Eu sei o que pedir
E o que fazer
Mas a verdade é que eu não sei
O que será de mim
Quando a hora chegar

Anos a fio
Eu morei aonde podia
Tentei ver além
Das falhas insones
das luzes apagadas​
Precisava levar nas costas
O mundo ao redor
O meu coração que caçava
Algo além da força 
Bruta e estúpida
Tomando o espaço
Que sentia sede 
E fome
Por muito tempo
Eu não pude sonhar

Sigo ainda remendando
O ponteiro custa a girar
Os meus passos rápidos
Caminham a um altar
Que nunca cederá
Fotos e rostos e frases
A única parte minha que sente
O resto é pedra
E terra
Apenas estrada
Nada mais demora
Já faz muito tempo
E eu preciso andar


"And I'm damned if I do
And I'm damned if I don't
So here's to drinks in the dark 
At the end of my road
And I'm ready to suffer
And I'm ready to hope
It's a shot in the dark aimed right at my throat
'Cause looking for heaven, found the devil in me
But what the hell
I'm gomna let it happen to me."

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Desenganado

Tenho inventado palavras novas
Que definam quem sou
A língua que falo não basta
Letra nenhuma abriga
Da chuva
Dos dias mais longos

Tenho vivido a beira de mim
Meus sonhos loucos
Minha voz rouca
Não bastam
Pra que eu perca de vez
A razão

As perguntas que faço
A todas as coisas mudas
Tetos, janelas
Você
Calados como se soubessem
É questão de tempo
Até que eu perceba

Saio e torno à casa
E a música que embala a noite
Não distrai meus ouvidos
Preciso ver outras coisas
E a bebida que eu bebo
Embriaga os outros
E não turva minha visão

Eu sei, eu sei.....
É hora de me despedir
Uma prece, um beijo
Um passo atrás do outro
Até que se chege em algum lugar.
Eu sei.

Mas é que venho caminhando,
Distante
Imaginando o lugar
Em que eu enlouqueceria
E de todas as crenças
Nenhuma resistiria.

Nesses passos
Eu vejo o mesmo filme
As mesmas horas
Gastas as minhas pernas
Doídas como tudo mais
E certeza nenhuma
Parece querer deixar
A cena, o sono,
Ou minha face voltada
Para a única busca
Que não posso buscar.

O que me resta?
O vento a gritar
As perguntas de volta
Jogadas no ar
A verdade óbvia
Gélida e velha
Cansada de esperar.

É cedo, é tarde, está na hora.
Eu sei
Mas saber não basta
E não cessa
Quando ajoelho
Tornando a rezar.

Cairão como o que pesa
As certezas e a fé
No momento em que meus pés
Tocarem o chão.
Eu deixarei esse lugar
Mas agora,
Tenho caminhado em silêncio
Até que as palavras que murmuro
A mim mesma
Encontrem o que eu perdi
Ou escrevam algo novo
Longe daqui.


"Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim"



Candeia

Essa noite, ajoelho
e revivo
Ao padecer
Em tudo que em mim
Faz memória e morada

Morrem as histórias
E as lágrimas desmancham
A areia
Em castelos

Morrem os amores
E últimos suspiros
Como se fossem plurais....
Você, mais do que nunca
Sabe-se singular

Mas você também não está mais aqui
Como todo o resto
Enquanto me despeço
Como o apito da partida
E a assinatura da carta

Sei que estou morta 
E fria
E peço perdão
Pelo esboço de mim 
Impresso em você

Quis ser mais
Mas por excesso de zelo
Ou falta de permissão
Eu tive medo de queimar,
chover em cinzas
E repousar em seus ombros

Há muitos anos eu proibi o amor
Aos quatro ventos e todos os céus
Mas além da minha jura de nada
E dos primórdios do medo,
Você foi a hora e o óbvio

Depois de tudo,
O meu maior temor
Eu queimo em razão
E enorme pesar

Você me fez certa
E tão exata
Quando eu queria,
Concisa, desmoronar

Entenda,
Quando você se despediu
Levou as chances e o sol
Deixou a razão, 
A minha lógica
Em continuar só,
Inteira e inerte

Você precisa saber que não sabe
O quanto dói
O quanto eu queria estender as mãos
E revelar o tanto que ergui
A vista que eu vi

Depois de caminhar
Até a pura exaustão
Você foi a vista,
O nado e o fôlego
E eu pude descansar

Eu diria do abraço
E da promessa a me salvar
Mas você acordou
E em desgraça,
Em segredo eu sabia
Ninguém poderia ficar

Nas estrelas havia um espaço
Inúteis os desejos e preces
Ali, só, eu iria morar

Eu te daria as mãos
Mas sei que por força ou acaso
Eu teria de seguir sozinha
 E por mim, 
Iria sem essa parte nula
Que é o todo do grito
Da falta
De pertencer só

Contudo,
Você é razão
Instinto insano, cruel.
Você é o perdão, 
A ausência do ódio
E de qualquer condição. 

Eu acredito em você 
E em tudo que ficou,
Como uma casa que herda
As memórias e a tristeza,
Como o céu que abriga os desejos
E a saudade

Você nunca ficaria
Pelo pedido que eu não faço
E pela sua confusão. 

De joelhos,
Mundo abaixo,
Certeza sem rumo,
Aposta sem êxito,
Prece sem ânimo.

Tive razão e abdico 
Do que mais vier
Nada permanece
Por culpa ou carma
Você foi tudo o que se perde
Quando não há mais nada

Toda a minha história era segredo
E sepulcro
Por mais que eu quisesse
O amanhã chegaria
E eu sabia da hora da despedida

De todos os tempos e terras
Guirlandas de adeus
Você floresceu
Único gravado em pedra
Fica o caminho
Longo como sempre,
Do seu amor velado
Escondido em mim.

Distância exata,
Previsão descarada
Eu sabia da ida,
Mas não da demora.
Sabia que seguiria só
Mas você habita a estrada.

Ao maior encontro
A menor despedida
Desgosto, receio
Infinita gratidão

Eu sabia do fim e do meu talento
Em prever a partida e seguir a esmo

A maior prova
Do que espera além
É o amargor que não cessa
Tudo resume você
Que sempre teria de ir
Eu só sei dizer adeus
E, ainda assim
 Começaria

terça-feira, 4 de abril de 2017

Majestade

Existem as dores
que vem e vão.
Aquelas que se fazem lembrar
e, contentes,
por satisfeitas
podem dar-se por vencidas.

Por vezes vivi
algo que roubava
segundos e pormenores.
Eram sustos,
e sobrenomes,
sem demora.

Algumas lágrimas
cresceram florestas
e sombras,
úmidas, tórridas,
completas e imperfeitas.

Seguia ainda
reinando em mim.
Cada parte bastava
por moeda própria,
cunhada e que selava
o troco extinto
imperatriz,
solstício,
dias e dias,
eu seria o sol,
o reino,
o repente
e o fim.

Tudo seria justificado,
eu seria a força e o caos
tempestade e temperança.
Os extremos habitariam
e eu existiria
sem prumo,
sem curva,
rainha de mim.

Mas as lendas são feitas
de tudo o que finda,
e embora eu não quebre,
o manto se atira ao fogo.

O que sinto não é dor,
não é fim
e nem sangue
a escorrer pelo cetro
seguro, enfim.

O que sinto é maior
e cabe e abriga
todos os cantos do mar,
cantigas antigas
que insistem em ecoar.

Pode ser que por sentir
e ser só,
eu naufrague sozinha
e reine em paz.
Pode ser que por ser assim,
eu habite o cinza
na nuvem que não chove
e no corpo que não despe
qualquer defesa.
Talvez eu tenha perdido
o que seria de mim.

O amor é um templo,
em que perecem as coisas mais belas,
carentes de tempo
e coragem.
Pode ser que por medo,
ou estupidez,
os meus joelhos rastejem,
e meus olhos laminem
o fio do destino.

As minhas mãos,
estreitas de viagem
e empoeiradas,
abraçam o que resta,
e embalam o meu sono,
cantando:

Não viverás
ao fim de tudo.
Sucumbir é áspero
indigno e ingrato.
Mas finda a revolta
e se a memória migrar,
não viverás
a ver o fim
do seu breve reinado,
como taça que entorna o vinho
roubando a sede dos lábios,
resquício ébrio,
de tudo ausente.

Forte e ferida,
não escondes nada.
És o corte,
a linha,
o sangue,
e o cárcere.

Existem as dores
que nascem apenas,
dotadas do hábito,
da fé.
Sabem-se vencidas,
por retorno ou comunhão,
encantos raros, tão raros
ajoelham-se em pranto
desencarnam em gratidão.

Sobram as adagas
e os venenos.
Espreitam as dores,
não esquecidas,
caminhando sobre a neve,
rastejando sob o chão.

São doces,
tão doces,
fatais.
São crença a rezar
o terço em contas,
envolve o pescoço
e sufoca as preces.

A dor do silêncio
e de tudo que veio
com a coroa do afeto
e do inédito.

Há ainda a dor perdida,
que caminho nenhum há de traçar.
Mas você,
você é a dor que respira.
Dança, vive e roga,
festa em mim.
Você é o limite,
a véspera e o adormecer,
cada linha entre o luto
e onde quer que eu vá.
A luz acesa,
vela e chama
em tempestade.
Noite, dia,
dor liberta,
fértil e febril.

Existe o fim
e o depois.
Você é o restante,
lavrado em ouro,
em brasa,
na pele,
no peito.
A pulso,
resiste.

Norte

eu sei que você disse  a verdade
e que daqui em diante
a certeza é
apenas
tudo o que resta

eu sei que talvez
a sanidade deixe
o cenário
e leve o melhor de mim

mas esse melhor
fadado no escuro
foi descoberto
enquanto eu lembrei
da luz acesa

são todas as formas
o amor que não arde
o amor que consome
o que revira dentro de mim

o amor não faz mal
apenas sucumbe o resto
e se recusa a seguir
e a ser tudo mais
que não é de verdade

eu acredito em você
e é nessa fé
que eu lembro de mim
eu também tenho certeza
nada sai do lugar
torpe
infinito
incoerente

você não é o meu fim
preciso seguir
mas o caminho é maldito
o mapa sem destino
só leva à você

sábado, 1 de abril de 2017

Ponteiro

Eu juro que queria escrever sobre outra coisa. Sobre o cansaço, a vontade de parar, sobre quanto tempo passou. Meu maior desejo é conseguir falar sobre tudo que passou. Sobre o que eu escrevo e os lugares novos que descobri, sobre os meus livros e pensamentos de segundo que pouco a pouco me transformam.
Mas a verdade é que escrever sobre coisas novas as torna reais, assustadoramente reais. Não conheço essa realidade chuvosa, essa nostalgia. Escrever sobre a mudança a tornaria natural e aceitar essa nova realidade como algo meu custa, custa muito. Dividir espaço com alguém dentro de mim resume o caos cego que passei a habitar.
Adoraria dizer que estou em contagem regressiva, no processo final de algo, mas eu ainda - ainda! - me questiono sobre cada passo além desse lugar. Penso duas vezes antes de pedir pra esquecer, simplesmente por ser inacreditável lembrar de tudo em vão.
Desde que comecei a escrever, sinto que falo demais de amor. Mais uma vez, eu sei que amor nunca é demais. O problema sempre foi que quis falar de tudo....adivinha quem estava lá, em tudo?
O problema é que eu talvez nunca tenha falado de um amor que fosse meu, talvez por nunca ter vivido algo de verdade meu. Esperei por algo que me acompanhasse - nada parecia conseguir - e ganhei uma nova sombra, logo eu. Logo eu que queria escrever sobre outra coisa.
A verdade é que não é possível fazer outra coisa enquanto se espera, além de esperar. Por algo velho, algo novo, algo que faça esquecer o pretexto da espera. Algo além desse nada em cada linha sem graça do meu medo de esquecer, do nada espalhado por cada canto são em mim.


"I crouch like a crow
Contrasting the snow
For the agony, I'd rather know
'Cause blinded I am blindsided

Peek in... into the peer in
I'm not really like this... I'm probably plightless

I cup the window
I'm crippled and slow
For the agony
I'd rather know
'Cause blinded I am blindsided"

quarta-feira, 29 de março de 2017

Desígnio

eu sou o eco
não da dor
mas do momento que dói
como um espelho que se quebra
em mil reflexos cortantes

tornei-me o vento
da estação passada
que já não sopra
que já não é
e carrego tesouros humildes
que varri comigo
 enquanto tudo passava

há espaço demais
dia após dia
mais e mais cheio
tudo se dissipa
e nada termina
nada que se consiga olhar

eu não sei parar
sou a luz
e a sombra
a incidir em todos os lugares
toco tudo que vejo
pra em lugar nenhum estar

serei o exílio
de mim e da nova ordem
instaurada em silêncio
marcada pela prece
rogada e doente

eu sou a peste
houve o tempo em que nada durava
mas hoje só vivo
enquanto insisto em perecer
a morte não é mistério
é nada além de atirar
tudo o que se é
e se lembra
e que resta
e respira
ao precipício
até que não haja
 ser,
história,
ar
ou abismo

sou mais que a ausência
além do nada
o vazio é a nascente
mas sou o que não nasce
e tampouco sente

assisto ao batismo
do que não se nomeia
água que lava em tempo
criação incompleta
obra do destino
alinhada ao acaso
cortada em pedaços

eu sou o caos
e falha-me a visão
o que eu vejo já não mais o é
nada pode ser visto
os olhos são cegos
refletem a chama do tempo

o segundo
em que tudo deixa de ser
chamo de amor
o que os olhos pensam ver
o que insiste em sumir

 Eu fui o amor
e nada mais poderia
me afastar
Deixo essa eterna prisão
terminantemente livre

em nenhum dos lares construídos
eu poderia morar
sou o telhado que cede
 e os escombros pelo chão
parede nenhuma resiste
ao que insisto em pregar


" My slavery is over; I have escaped my fetters, and what I bore without shame, it now shames me to have borne at all. I've won the day; Love is vanquished. I trample it beneath my feet. True, I've been a long time plucking up courage. Fight on, my soul, and faint not. It is a wrench, indeed, but some day you'll be glad you bore this present pain."

quinta-feira, 23 de março de 2017

Sem nome

Eu perguntei se esse vazio já existia antes, mas nada depois de você tem sido o mesmo. A verdade é que eu não sei o que diria se te encontrasse, se eu conseguiria fazer o que venho fazendo. Se meus braços querem te abraçar, é como se eu simplesmente os esquecesse ali, nulos. Se meus lábios quiserem, por teimosia ou desatino, falar em vão, calo imediatamente. Tenho morado no silêncio - você faz barulho demais.
Se esse vazio existia antes, existia em outra pessoa, coisa que eu sabia desde a última vez que te vi. Dizendo da saudade ou apenas fugindo, não existe fim ainda. Se um dia você acabar de fato, terei de recomeçar - mais uma vez. Perguntei se era isso que eu queria, se havia me tornado o tipo de pessoa que para por aqui e toma horror a qualquer início. Mas eu não posso desistir. Não por não querer, por ausência de obstinação. Desistir se tornou minha verdadeira obsessão, talvez por ser a única coisa que não consigo fazer. Você é a única coisa que eu não consigo fazer.
Se eu desistisse, seríamos dois a fazê-lo. Pode ser algo sábio a se fazer, um ato responsável. Nunca hesitei em desistir ou em me glorificar por fazê-lo. Essa é a primeira vez. Talvez seja exatamente esse o motivo insano que encontro para persistir. Por uma única e breve vez, houve paz, um instante sem o resto do mundo - e essa é uma sensação que não se esquece, tanto por parecer impossível sentir de novo quanto por duvidar se foi real. Resta o vício da memória. Resta uma sensação de eterno agradecimento. Como eu queria ser igual a você e me despedir, como eu queria ser de novo igual a mim e não olhar mais pra trás. Mas a verdade é que essa é a única vez em que eu não mudaria nada, porque depois de você entendi que algumas coisas não precisam de mudanças, de razão, de sentido. Depois de você, o que vi é algo que quero levar comigo - às vezes, a despedida não é uma escolha. Ao longo do caminho e em tudo que eu puder ser, escolho enlouquecer - vazio nenhum assusta depois de você.

quarta-feira, 8 de março de 2017

sertão

não é só você
são também os rostos
com hora marcada
o recado na porta
a doença no adeus

não é só a ausência
e o meu lado vazio
é também a sombra
de outros lugares
que não posso ocupar

é o selo em cada carta
a se endereçar
é a festa fora de hora
que finda com pernas fracas
 sambando sem razão

não foi só você
que entregou os pontos
e a vez
eu também não sei pra onde ir

não são só destroços
essa nesga de nada que fica
é também tudo
que nunca mais serei
é uma roupa que não cabe mais
a casa da infância
as fotos no armário

são as coisas que acumulam
e espaços que encolhem
é o meu juízo
e meu corpo
subindo pelas paredes
o desespero irmão

as músicas
e o que você ouve
não são um pedido
ou memória
e essas lágrimas
amparadas pela mão cansada
tardam em repousar
jorram em nascente
seguem perdidas

não é só você
já não posso segurar
essa corda
no abismo que intercalo
separando o outro lado
de tudo que é nosso
e fere as palmas
sangrando no ar

é a história
e a sola dos pés
antes de você
eu caminhava
e pedra nenhuma
você mudou no chão
poeira
suor
o cansaço era o mesmo
a fabricar essa ilusão

é também o sono
da minha mãe
que não dorme
e o silêncio no véu
da noite
na prataria incompleta da sala
é o casamento desfeito
e os cacos da herança

faltam bules
tampas
memórias
e amor

não
não é só você
e o que eu esculpi
enquanto falávamos
e faltávamos
em conjunto

é o tempo
em que eu nasci
e deixei de crescer
antes a morte
que engolir a seco
embora você seja o sonho
acordo sempre em vão
e é dessa verdade que eu fujo
essa é a desgraça que fito
ao entrar pela porta
que você deixou aberta

e embora
o último a sair
tenha apagado a luz
você foi apenas gatilho
que o dedo puxava no escuro
na ausência de salvação

eu preciso de mais
memória
medo
e solidão

pra lembrar não de você
que não é
nada disso
mas pra me saber no caos
sem virar a cabeça
ou fitar o chão

não é você
a desgraça
a causa
 é o que eu preciso habitar
longe e perto de mim
respirar a fumaça
tóxica
lenta
sincera

é enxergar a saída
devorar o meu mundo
pulo em queda livre
mergulhar em imensidão
imergir no pavor
e fazer dele castelo
habitar a escuridão




"The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster." (Elizabeth Bishop)