“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 27 de junho de 2017

Monumento

Desde outro dia
Que finjo não recordar
Visto o mesmo manto preto
E arrasto meu peito oco

Dia após dia
A dor perde o fio
E encontro-me aqui
A amolar a memória
Um corte exato
No mesmo lugar

Mesmo sendo o meu peito
A pedra a refazer o fio
Já não amparo
o que escorre de mim
Na esperança de que
Depois do fim
Venha o vazio

Todas as horas repetidas
Deixam o mesmo recado
Por mais que eu segure
A mesma mensagem
Os mesmos dois gumes
Seguem cortando
A linha que trilho
A pontiagudos passos

Eu não quero falar da ferida
Tampouco abrir minha pele
E exalar o que eu vejo
Por dentro dos olhos
Ainda assim
Noite adentro
Desafio cada soluço
A ser mais forte que eu

Resisto ao silêncio
Curvada sob a estátua
Que ergui sem saber
Fiz-me uma com o chão vermelho
No endereço da ausência

Pedra sobre perda
Ergui o que sustenta
Todas as derrotas
Até que nada se perca
E a lâmina dos hábitos
Enferruje o passado

sexta-feira, 23 de junho de 2017

3x4

Muitas coisas mudaram
E foram ser outras coisas
Pra outras pessoas

Meu quarto continua
 eu continuo
Imersa em alguns fantasmas
Talvez me falhe a fé 
Na existência do que permaneça

Talvez tenha sido
Enquanto eu tinha sono
E repousava em ser breve
Enquanto rapidez era a única arma
Contra as ausências no caminho

Talvez você tenha resistido
Quando perdi a razão
A razão era a sombra
Do caminho errado
E a história era dia

Muito do que se conhecia
Acabou
Amanheceu sepultado
ou memória a escorrer
Dos olhos de alguém

Não tenho fotos
Ou cartas antigas
Sequer um cartão
ou outro resquício
Da única vez
Em que de fato
Eu me perdi

Só me serve essa cama
o teto a lembrar
Do que eu senti
Continua no quarto
(E no âmago) 

Talvez essa coisa
Jamais vá ser outra
Além do mistério suspenso
Mirando meu sono
Desde que as outras coisas
Exatas ou sádicas
Deixaram de ser o que eram
E me encontrei aqui

Cronômetro

Sentava com as estrelas
Quando ouvi uma canção
há muito esquecida
Vibrando no escuro

As cordas invisíveis tocavam
E a cada acorde
O som mais antigo
Que a alma há de conhecer

E o céu era parte da música
Que passava
A noite era parte do som
Que passava
E as cordas vibravam como o tempo
E diziam
Que sempre estiveram ali

Todas as rugas no rosto
E os passos no chão
A minha frente
Enquanto eu pensava que essa terra
Era pó
Toda essa estrada sozinha
Cabia e cantava em apelo
E pedia aos meus ouvidos que ouvissem
Implorava aos meus olhos que vissem
E que todo o corpo vivesse
O que acontece aqui

E sem motivo para o agora
Espio pela fresta de todos os perdões
Da morte da pressa
Do dilúvio da dor
Só existem cordas e estrelas
E o mistério revelado
De ocupar todo o espaço
E ouvir o som do destino
Golpeando o ar

Ouvir o tempo pintar uma tela
E traçar como aviso
A paisagem de amanhã
Como se oferecesse propósito
E me dissesse
Que o eterno segredo da vida
É encontrar e salvar
O que há a ser salvo

As cordas vibravam e viviam
A assistir
Enquanto os meus joelhos
Curvaram
E meus olhos fecharam
Enquanto eu fui rio
Como que dizendo
"Eu sou a corrente
E sempre estou aqui"

Nunca achei
Nada do que deve ser descoberto
Ou tive respostas certas
É impossível chegar na hora
Quando o encontro não foi marcado
Eu sempre corri
E o destino não era meu
Como o traço que rabisco
Ou o seu nome que escrevo

Nenhuma das coisas que toco
Pertencem a mim
Tampouco essa lágrima
Tampouco essa ausência
Ou essa certeza
De que as cordas que vibram
Sempre estarão aqui

Todos os dias dancei ao som
Do meu próprio destino
Abraçando cada tropeço
Que me leva
E me diz
(Em verdade vinda voando
Como quem traz o que falta):

"Tudo virá
E o que importa
Está aqui"

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O sol

Já havia dor antes
E outras noites claras demais
Mas todos os antes
Parecem tão rápidos
Desde que parei aqui

Se existe algum sentindo
Em perder a razão
O preço é alto demais
Se o erro e a culpa
Forem o meu reinado
Então a dívida é eterna

Em cada pedra da minha coroa
Em cada espinho no meu arranjo
Em cada adaga pulsando em mim
Respira em uníssono o seu peito

Ainda sorrio
Dentes tortos e alma sombria
Eu sei da parte minha que resta
E ninguém adivinha
Aonde mora minha paz

Não sei aonde olhar
Quando abri todas as janelas
Em busca desenfreada
Esqueci que o sol era seu

Aceitar o que viesse
Sempre foi um hábito
Porque eu nunca tive certeza
Até inventar seu rosto
Nesse desvario
Enorme como o vazio
A perda era uma lei
Nunca questionada
Até que dissemos adeus

Agora,
Todos os dias são perguntas
E quanto falta
E aonde foi
Cada parte sã

A dor era um lar
Um teto em que eu dormia
A herança da minha família
Mas quando algo resiste
Os olhos nascem de novo
E dentro do seu olhar jurei assistir
A vida começar

E o que a fé nesse caos
Faz noite adentro
Une todos os santos
E infernos
Por onde eu passo
E renasço toda vez
Que digo adeus

Em cada palavra
Em todas as linhas
Descrevo não saber
O que difere de tudo
O restante da história
O infinito em cada pergunta
O vazio em cada segundo
Quando lembro de você

Fog

As perguntas que eu faria
Ecoam como grito
E o arrepio da hora
Sabe ser tarde
É receio, enfim
Não encontrar o caminho
De volta
Ou pra fora daqui

A minha velocidade
Sempre borrou a visão
De algo maior
E me salvou desse abismo
Eu teria pulado
E a neblina mentia
Como a sua língua

Não mereço a verdade
Ou a raiva
E a causa se confunde
Com promessa nenhuma
A razão era outra
E o segredo de nada valia
Como prova de afeto

Eu não sei
E por não saber
Minhas mãos apoiam a face
Em pálido desespero
Antigo e apático
Como a pergunta e o relógio
Que não para de gritar
O tempo fala
E por mágica ou maldição
Tudo mais faz silêncio
Quando surge a sua voz

A sanidade perdida
A fé que se esvai
Não existem pedidos
Não faço desejos
O que procuro
Jaz intacto
Em algum lugar longe
Numa terra inteira
Desde que parti

terça-feira, 20 de junho de 2017

No vento

Talvez eu já soubesse
Que você não viria
Ou que ninguém chegaria
E andaria pela tormenta
Quando é preciso ter força
Algumas coisas desaparecem

Quando olho pra trás
Vejo os pingos de um passado
Que não para de chover
As nuvens e trovões distantes
Rugindo em despedida
Talvez a minha força
Tenha sempre sido
Uma história de adeus

Quando se tem toda certeza
E se envia todas as cartas
Resta o raio que parte
A saudade na garganta
O peso nas pernas
Impedidas de voltar
Restam as luzes na estrada
Como um bater de asas

Talvez eu já soubesse
Antes, depois ou enquanto
Houvesse você
A partida seria como espera
Sempre prestes a chegar

Ainda que eu implorasse
Por tempo e por pouco
O meu começo é o céu
Paixão alada ao vento
Quando é preciso viver
Meu instinto é voar

sexta-feira, 16 de junho de 2017

De cor

é uma sina óbvia
que todas as minhas mentiras
ganhem vida
e me provem o mesmo
todos os dias

a cidade fantasma
do quarto vazio
da taça sob a mesa
da fome sem fim
nada se ouve
além da incerteza
no chamado dos nomes

aqui não são ditas coisas bonitas
mas toda a realidade
como brasa na pele
imprime uma marca
além da chuva e do olhar
que cisma em vagar

aqui toda a culpa se distribui
em partes iguais de agonia
como sempre deve ser
o teatro dos erros
numa cortina que nunca cerra

não cessa jamais
essa sensação de futuro
é como um abraço sem remetente
uma prece sem voz
uma certeza sem sim,
ausentes o limite e o não

são razões óbvias
as pelas quais
o vazio permanece

todas as mentiras decoradas
de coração
contadas uma a uma
até que voem como abraço
ou pairem no destino
desmanchando meus hábitos

e como o verão
da minha insanidade
principiem algo a mais
e sirvam como razão
e selo
das minhas mentiras
endereçadas a mim

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Fogueira

hoje o que ecoa em mim
é o desejo de explodir
com o que ficou
de amor e resto
das palavras de nós dois

atear fogo ao quarto
queimar a sombra
e o silêncio
os lençóis e o gosto
mas até as cinzas
falariam do que foi

eu quero falar da raiva
por nada nunca mudar
quero escrever a cena
durante todo o tempo
em que a música tocava
assim eu veria
mais uma vez
todas as noites

eu iria embora
ou nasceria de novo
trocaria essa história
por qualquer minuto
em que não existíssemos

não há paz
depois de tudo
ou início
ou por onde começar

perderia tudo
pra acender a luz
e queimar o caminho de volta
mas mesmo no escuro
eu correria longe
até o tempo que passou

tudo o que vejo é fogo
e todos os toques ardem
em ausência e culpa
em verdade e fim
 eu lamberia em chamas
 qualquer outro som
 falando de adeus

 ainda e sempre
sigo incendiando
qualquer estrada
que não leve até você 

Salvação

sei que repito
a mesma agonia
até que eu encontre
desculpa ou vazio

mas o desejo maior
persegue o momento
em que eu não vi
em que todas as coisas
perderam o equilíbrio
caíram cegas
enquanto eu dormia
e perdida,
amava o que sufocava
e era o meu sopro de ar

se um dia estive
além da beira
desse precipício que chamo de lar
você estendeu as mãos
abandonei meus próprios pés
além da recusa e do corpo
caminhei ao encontro
do seu caminho

se nessas memórias
o mar das minhas histórias
atentasse o meu fôlego
e afogasse a minha força
o seu rosto seria barco
e suas palavras o vento
nas ondas e cinza
sempre a me salvar

Beleza, manto e segredo.

É como algo que nunca muda
um dia que não acaba
o sol virando lua
uma dor insone
um sorriso eterno

uma hora no relógio
a vida olhando as horas
um abraço repetido
até caber no sorriso
até morar na memória

uma marca impressa
ou a ruga no rosto
um adeus mudo
que nada quer dizer
para as almas o encontro é um só

um canto de aleluia
solitário, une todos os sopros
da vida e da perda
em todos os lábios
sem tradução

uma tela a exibir
essa glória não de outros
mas de todos os tempos
em que houve a comunhão
da alegria confessa
em estar aqui

puro, agradece
como criança, não dorme
quando é a hora explode
em mil cores e formas
enraizado, multiplica
(num zelo tão antigo,
nato e sagrado)
e dos seus próprios frutos
 renasce.

(O amor é uma história contada em segredo
até que floresça em jardim
é, no íntimo de si, fecundo e sereno
em tudo que toca, está
a todos enxerga iguais
mestre de todo destino,
por ironia e ausência de acaso
jamais encontra descanso).

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sobrevida

As coisas que dizemos
Ao cerrar​ dos olhos
Dos lábios
E do som
Perduram

Entre duas vidas
Que nunca dizem adeus
Sobram dúvidas
Que repetem
E como espelho
Devolvem a vista
Mas não revivem sonhos

Tudo o que eu sou
Veio da memória acesa
Pela coragem dos seus passos
Hoje distantes
E sempre inconsequentes

Se eu não acreditasse
Jamais saberia
E seguiria o mesmo rumo
Você levou o que era raso
Mas tocou muito mais
A sua ida é verdade
Que silêncio nenhum anuncia

Algumas histórias
São feitas de paz
Algumas outras
São apenas vazias
De luta ou de glória
Talvez nenhuma sobreviva
Mas vivem, todas,
De toda e qualquer maneira

[Amor nenhum
Pede trégua
Enquanto fala]

Par

Pelo caminho
Vejo dois corpos
Impressos como estátuas
Caminham ou dançam
O limite dos lábios, impreciso
Perdem-se em saudade
E a fusão das almas
Vira pó
Desintegra-se num segundo
Como o tempo que passou

Nada proclama a graça
Com que cessa a existência
Dos amores eternos
Palavra nenhuma descreve
A cor da chama que queima
Depois do fim

Separam-se as mãos
E mais nada se dá
Todos os ecos
Em todos os ares
E vazios no mundo
Anunciam
Serão os corpos
As mãos
Resquícios do tempo
Poeira ao vento

Os lugares mudaram
Carregam agora
As partículas deixadas
Confusas e miúdas
Como cinzas ao mar
Dos dois corpos que ali ficaram
Por nunca mais
Serem os mesmos
Tampouco poderem voltar

Sombra de outrora no chão
Nascem todos os dias
Ardem por todo o luar
Até que nada reste
Senão a imagem desfeita
Pairando estática
Sob os postes
Iluminada e invisível
Na calçada do mesmo lugar

domingo, 11 de junho de 2017

Sobre poetas

Nunca estou em casa
meu lar são as palavras
ainda por vir.

É uma agonia íngreme
dar luz a uma parte de si
que se acostumou ao breu.

Qualquer alma anseia
por chegada
qualquer que seja esta
e por destino,
mas eu (por teimosia
ou amor à solidão),
vivo em uníssono com o destino
e até a exaustão com a jornada.

 Sim, esta alma é uma eterna
ânsia
e uma péssima mentirosa,
encantada por natureza
e invariavelmente,
perdida no tempo.

Enquanto alguns carregam,
relógios de bolso,
ou em pulsos,
a minha maldição é desobedecer as horas.

Enquanto escrava de meu próprio rumo
meus únicos horários
são as intempéries,
pontualmente atrasadas,
sempre cobertas de razão.

A minha alma é senhora
de si e de tudo o que a toca
Mas meu corpo (por eterna desobediência)
e corre ao vento,
nu e jovem,
cresce e jamais envelhece.

 É um começo de saudade
que oscila, insano,
por toda a tristeza
correndo alegre quando diz, irreverente
o que os lábios não podem.

Um misto de doença,
que nunca decide por ficar,
grita por nada
e insaciável, percorre memórias
da coragem ao vazio
permanece estarrecida
com o vício em reviver.

Nunca satisfeita,
tudo inquieta o olhar,
enquanto houver silêncio
e vindas de lugar nenhum,
restará algo
ainda por dizer.

Segredos

Quando todas as coisas que fiz
forem lar
não contarei sobre o que ficou
serei o céu e as estrelas
o teto e o abrigo
que parti a buscar.

São infinitas as vozes da alma
e suas sinfonias,
tão sutis e secretas
tocam todos os ventos,
sopram todos os dias,
reveladas no ar.

As escrituras do tempo
não escrevem a tinta
são lei
estão em cada espaço
e cada parágrafo em branco
é como uma vida perdida
escrita, em tempo, em mim.

O cansaço é maior
em um céu azul
e a sala empoeirada
é de poucas palavras.

Aqui, tudo já foi maior
tudo já foi.

É como passar os dedos
por uma carta antiga,
como ter preocupações inúteis
e atribulações inférteis.
 
Os pensamentos são de outrora
e o amor é velho e enrugado
como alguém que perdeu a hora
e resolveu descansar
aos poucos
e cada vez mais
deixado para trás.

O silêncio atesta
as mesmas coisas
desde o começo,
do que se quis dizer
e agora,
a bagunça feita repousa,
até que, tão tola,
alguém a encontre
ou a desculpe.

Quando eu calar
é que nada terá restado
junto a mim,
um sonho
e um segredo a cada lado,
a metade sagrada em adeus
e o perdão selado em encontro.

sábado, 10 de junho de 2017

Mães

Eu lia tranquilamente quando ela adentrou a sala com pressa, emitindo susurros zangados. Enquanto guardava as compras e tumultuava minha leitura, ela era ainda a mesma mulher que me ensinou a ler. As mesmas mãos que arrumavam a sala como um furacão e por pouco entornavam meu café, eram as mesmas mãos que haviam recebido esse mesmo livro há anos atrás. Nesse exato momento, como em todos os sábados, ela desenterra fotos e panfletos e cartas empoeiradas e as exibe como um tesouro a mim, que as encaro repetidamente como quem vê um tesouro. Há sempre, sempre, algum detalhe novo no sorriso de minha avó.
Guardadas as fotos, começam os sons do fogão, carregando as dores dessa vida que vemos passar. Ela é ainda a mesma alma, jovem e agoniada, fragmentada em mil formas de adeus.