“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Primogênito

Escrevi o seu capítulo
como o apogeu da estória.
Poderia ler em voz alta cada palavra
narrando o seu enredo.

Mas você foi só meu.

Leio a sua história
e não sei escrever o final.
Meu amor, meu herói.
Os vilões ausentes,
a sua valentia.

Como narrar o que você salvou,
O meu coração,
A minha escolha.
Sou livre,
Sou só
minhas mãos manchadas de adeus.

Escreveria das suas falhas,
daquele lado irreverente,
da coragem assustadora
com que seus olhos se abririam.

E como queria olhar nos seus olhos,
Mas você foi tão breve.
Queria dizer adeus,
Mas você não tem fim.


"you are the best thing
that's ever been mine."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Seria

nós andaríamos de mãos dadas
até que os caminhos se esgostassem
exaustos dos nossos passos

nós diríamos absurdos
sonharíamos sonhos emprestados
e acordaríamos outro dia

nosso choro seria um convite
para um coração imenso
seríamos a memória inesgotável
da volta pra casa

minha mão escreve
sem encontrar a sua
minhas pernas não caminham
sabendo que as suas não tocam o chão

o meu coração,
pequeno
o meu convite,
ausente

minha memória constrói sua volta
não sei aonde você mora

domingo, 1 de novembro de 2015

Travessia

escuta
você precisa ouvir
e os gritos seriam letais

divide comigo essa vista
e enxerga o meu caminho
por mais que pareça desgosto
é só a hora de partir

olha
a partir de agora
não deixa de olhar
quem estiver ao lado
olhar não cessa a dor
não diminui o infinito em amar
mas é o olhar a ponte
a construção do encontro eterno
e é hora de atravessar

entre ver
e sentir os meus olhos
nos seus
se encontra esse infinito
alguns precisam da travessia
outros precisam chegar

mar

peço perdão pela hora
e todos parecem ir
sempre a algum lugar

perdão pelo meu ritmo lento
de quem espera a hora
pra não se adiantar

perdão pela minha fé
eu não tenho aonde ir
e preciso acreditar

mas quem disse
que algo mudaria

perdão
mas meu nome descansa
sem nunca pertencer a ninguém
todos vêem a superfície
e nela calculam suas medidas
ninguém percebe o oceano
ninguém percebe o nome
o nome que é meu
o meu oceano

perdoem-me os barcos
os cálculos perfeitos
de um futuro ilustre
perdoem-me
se minha voz não soou tão alto
quanto deveria
mas e se alguém
quisesse escutar

maré

eu desejei uma onda
com a força viva da corrente
pendendo sobre mim

a natureza corre
e não queremos ser selvagens

se houver escolha
não saberemos escolher

a culpa é complexa
o passado é extenso
e nunca há espaço

desejei coisas
que minhas mãos não poderiam amparar
as mãos respondem ao corpo
e corpo nem sempre pergunta

desejei um mapa
apontando o lugar certo
e se eu pudesse enxergar as direções
o ponto seria inútil

não encontro fim
por ausência ou perdão
estou longe
e imploro ainda
que eu possa ir
sem precisar carregar
esse eterno segredo

eu não sei aonde chegar

ódio

quis dizer tudo
um grito alto que contivesse
toda essa mistura amarga
de tédio e amor

mas já havia um som alto
repetindo sem parar

quis ser tudo
e nessas várias receitas
apenas um ingrediente

[silêncio]

mais e mais
ser um sonho
apenas um fantasma
em troca de frases
promessas
o mundo
como se nunca mais
promessas pudessem ser reais

pois bem
o mundo ruía
ao meu primeiro som

enquanto eu não gritasse
nunca estaria só

e dos mundos que me prometeram
nenhum seria meu