eu sou o eco
não da dor
mas do momento que dói
como um espelho que se quebra
em mil reflexos cortantes
tornei-me o vento
da estação passada
que já não sopra
que já não é
e carrego tesouros humildes
que varri comigo
enquanto tudo passava
há espaço demais
dia após dia
mais e mais cheio
tudo se dissipa
e nada termina
nada que se consiga olhar
eu não sei parar
sou a luz
e a sombra
a incidir em todos os lugares
toco tudo que vejo
pra em lugar nenhum estar
serei o exílio
de mim e da nova ordem
instaurada em silêncio
marcada pela prece
rogada e doente
eu sou a peste
houve o tempo em que nada durava
mas hoje só vivo
enquanto insisto em perecer
a morte não é mistério
é nada além de atirar
tudo o que se é
e se lembra
e que resta
e respira
ao precipício
até que não haja
ser,
história,
ar
ou abismo
sou mais que a ausência
além do nada
o vazio é a nascente
mas sou o que não nasce
e tampouco sente
assisto ao batismo
do que não se nomeia
água que lava em tempo
criação incompleta
obra do destino
alinhada ao acaso
cortada em pedaços
eu sou o caos
e falha-me a visão
o que eu vejo já não mais o é
nada pode ser visto
os olhos são cegos
refletem a chama do tempo
o segundo
em que tudo deixa de ser
chamo de amor
o que os olhos pensam ver
o que insiste em sumir
Eu fui o amor
e nada mais poderia
me afastar
Deixo essa eterna prisão
terminantemente livre
em nenhum dos lares construídos
eu poderia morar
sou o telhado que cede
e os escombros pelo chão
parede nenhuma resiste
ao que insisto em pregar
" My slavery is over; I have escaped my fetters, and what I bore
without shame, it now shames me to have borne at all. I've won the
day; Love is vanquished. I trample it beneath my feet. True, I've been a
long time plucking up courage. Fight on, my soul, and faint not. It
is a wrench, indeed, but some day you'll be glad you bore this present
pain."
quarta-feira, 29 de março de 2017
quinta-feira, 23 de março de 2017
Sem nome
Eu perguntei se esse vazio já existia antes, mas nada depois de você tem sido o mesmo. A verdade é que eu não sei o que diria se te encontrasse, se eu conseguiria fazer o que venho fazendo. Se meus braços querem te abraçar, é como se eu simplesmente os esquecesse ali, nulos. Se meus lábios quiserem, por teimosia ou desatino, falar em vão, calo imediatamente. Tenho morado no silêncio - você faz barulho demais.
Se esse vazio existia antes, existia em outra pessoa, coisa que eu sabia desde a última vez que te vi. Dizendo da saudade ou apenas fugindo, não existe fim ainda. Se um dia você acabar de fato, terei de recomeçar - mais uma vez. Perguntei se era isso que eu queria, se havia me tornado o tipo de pessoa que para por aqui e toma horror a qualquer início. Mas eu não posso desistir. Não por não querer, por ausência de obstinação. Desistir se tornou minha verdadeira obsessão, talvez por ser a única coisa que não consigo fazer. Você é a única coisa que eu não consigo fazer.
Se eu desistisse, seríamos dois a fazê-lo. Pode ser algo sábio a se fazer, um ato responsável. Nunca hesitei em desistir ou em me glorificar por fazê-lo. Essa é a primeira vez. Talvez seja exatamente esse o motivo insano que encontro para persistir. Por uma única e breve vez, houve paz, um instante sem o resto do mundo - e essa é uma sensação que não se esquece, tanto por parecer impossível sentir de novo quanto por duvidar se foi real. Resta o vício da memória. Resta uma sensação de eterno agradecimento. Como eu queria ser igual a você e me despedir, como eu queria ser de novo igual a mim e não olhar mais pra trás. Mas a verdade é que essa é a única vez em que eu não mudaria nada, porque depois de você entendi que algumas coisas não precisam de mudanças, de razão, de sentido. Depois de você, o que vi é algo que quero levar comigo - às vezes, a despedida não é uma escolha. Ao longo do caminho e em tudo que eu puder ser, escolho enlouquecer - vazio nenhum assusta depois de você.
Se esse vazio existia antes, existia em outra pessoa, coisa que eu sabia desde a última vez que te vi. Dizendo da saudade ou apenas fugindo, não existe fim ainda. Se um dia você acabar de fato, terei de recomeçar - mais uma vez. Perguntei se era isso que eu queria, se havia me tornado o tipo de pessoa que para por aqui e toma horror a qualquer início. Mas eu não posso desistir. Não por não querer, por ausência de obstinação. Desistir se tornou minha verdadeira obsessão, talvez por ser a única coisa que não consigo fazer. Você é a única coisa que eu não consigo fazer.
Se eu desistisse, seríamos dois a fazê-lo. Pode ser algo sábio a se fazer, um ato responsável. Nunca hesitei em desistir ou em me glorificar por fazê-lo. Essa é a primeira vez. Talvez seja exatamente esse o motivo insano que encontro para persistir. Por uma única e breve vez, houve paz, um instante sem o resto do mundo - e essa é uma sensação que não se esquece, tanto por parecer impossível sentir de novo quanto por duvidar se foi real. Resta o vício da memória. Resta uma sensação de eterno agradecimento. Como eu queria ser igual a você e me despedir, como eu queria ser de novo igual a mim e não olhar mais pra trás. Mas a verdade é que essa é a única vez em que eu não mudaria nada, porque depois de você entendi que algumas coisas não precisam de mudanças, de razão, de sentido. Depois de você, o que vi é algo que quero levar comigo - às vezes, a despedida não é uma escolha. Ao longo do caminho e em tudo que eu puder ser, escolho enlouquecer - vazio nenhum assusta depois de você.
quarta-feira, 8 de março de 2017
sertão
não é só você
são também os rostos
com hora marcada
o recado na porta
a doença no adeus
não é só a ausência
e o meu lado vazio
é também a sombra
de outros lugares
que não posso ocupar
é o selo em cada carta
a se endereçar
é a festa fora de hora
que finda com pernas fracas
sambando sem razão
não foi só você
que entregou os pontos
e a vez
eu também não sei pra onde ir
não são só destroços
essa nesga de nada que fica
é também tudo
que nunca mais serei
é uma roupa que não cabe mais
a casa da infância
as fotos no armário
são as coisas que acumulam
e espaços que encolhem
é o meu juízo
e meu corpo
subindo pelas paredes
o desespero irmão
as músicas
e o que você ouve
não são um pedido
ou memória
e essas lágrimas
amparadas pela mão cansada
tardam em repousar
jorram em nascente
seguem perdidas
não é só você
já não posso segurar
essa corda
no abismo que intercalo
separando o outro lado
de tudo que é nosso
e fere as palmas
sangrando no ar
é a história
e a sola dos pés
antes de você
eu caminhava
e pedra nenhuma
você mudou no chão
poeira
suor
o cansaço era o mesmo
a fabricar essa ilusão
é também o sono
da minha mãe
que não dorme
e o silêncio no véu
da noite
na prataria incompleta da sala
é o casamento desfeito
e os cacos da herança
faltam bules
tampas
memórias
e amor
não
não é só você
e o que eu esculpi
enquanto falávamos
e faltávamos
em conjunto
é o tempo
em que eu nasci
e deixei de crescer
antes a morte
que engolir a seco
embora você seja o sonho
acordo sempre em vão
e é dessa verdade que eu fujo
essa é a desgraça que fito
ao entrar pela porta
que você deixou aberta
e embora
o último a sair
tenha apagado a luz
você foi apenas gatilho
que o dedo puxava no escuro
na ausência de salvação
eu preciso de mais
memória
medo
e solidão
pra lembrar não de você
que não é
nada disso
mas pra me saber no caos
sem virar a cabeça
ou fitar o chão
não é você
a desgraça
a causa
é o que eu preciso habitar
longe e perto de mim
respirar a fumaça
tóxica
lenta
sincera
é enxergar a saída
devorar o meu mundo
pulo em queda livre
mergulhar em imensidão
imergir no pavor
e fazer dele castelo
habitar a escuridão
são também os rostos
com hora marcada
o recado na porta
a doença no adeus
não é só a ausência
e o meu lado vazio
é também a sombra
de outros lugares
que não posso ocupar
é o selo em cada carta
a se endereçar
é a festa fora de hora
que finda com pernas fracas
sambando sem razão
não foi só você
que entregou os pontos
e a vez
eu também não sei pra onde ir
não são só destroços
essa nesga de nada que fica
é também tudo
que nunca mais serei
é uma roupa que não cabe mais
a casa da infância
as fotos no armário
são as coisas que acumulam
e espaços que encolhem
é o meu juízo
e meu corpo
subindo pelas paredes
o desespero irmão
as músicas
e o que você ouve
não são um pedido
ou memória
e essas lágrimas
amparadas pela mão cansada
tardam em repousar
jorram em nascente
seguem perdidas
não é só você
já não posso segurar
essa corda
no abismo que intercalo
separando o outro lado
de tudo que é nosso
e fere as palmas
sangrando no ar
é a história
e a sola dos pés
antes de você
eu caminhava
e pedra nenhuma
você mudou no chão
poeira
suor
o cansaço era o mesmo
a fabricar essa ilusão
é também o sono
da minha mãe
que não dorme
e o silêncio no véu
da noite
na prataria incompleta da sala
é o casamento desfeito
e os cacos da herança
faltam bules
tampas
memórias
e amor
não
não é só você
e o que eu esculpi
enquanto falávamos
e faltávamos
em conjunto
é o tempo
em que eu nasci
e deixei de crescer
antes a morte
que engolir a seco
embora você seja o sonho
acordo sempre em vão
e é dessa verdade que eu fujo
essa é a desgraça que fito
ao entrar pela porta
que você deixou aberta
e embora
o último a sair
tenha apagado a luz
você foi apenas gatilho
que o dedo puxava no escuro
na ausência de salvação
eu preciso de mais
memória
medo
e solidão
pra lembrar não de você
que não é
nada disso
mas pra me saber no caos
sem virar a cabeça
ou fitar o chão
não é você
a desgraça
a causa
é o que eu preciso habitar
longe e perto de mim
respirar a fumaça
tóxica
lenta
sincera
é enxergar a saída
devorar o meu mundo
pulo em queda livre
mergulhar em imensidão
imergir no pavor
e fazer dele castelo
habitar a escuridão
"The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster." (Elizabeth Bishop)
segunda-feira, 6 de março de 2017
Convite
Digo "meu amor"
não como quem a muitos chamou assim,
mas como nunca se ouviu
ou ouvirá a si mesma outra vez dizer.
A festa se encerra
ainda que a música toque
o que habita algum lugar do tempo.
Meu convite se perdeu.
Poderia pra sempre ficar
e sem saber,
nessa dança insana,
ouvindo a voz incessante
me implorando a valsar.
Ninguém mais saberia
ou jamais viveria assim.
É por isso, amor,
Que apesar de saber
e duvidar,
de tudo o que mente em mim,
não posso esperar
até que seus olhos me encontrem.
Poderia pra sempre encarar
os seus lábios
até que me peçam pra voltar.
É questão de tempo essa prece,
que com todo o cuidado se exprime,
proibida de espiar.
Com todas as vidas e cores
que vi em nossas mãos,
essa vívida dor
me faz longe de mim.
Ao meu amor, eu digo:
Você é verdade,
grande, tão grande,
dia após dia,
clama um pedaço como seu.
Mas a sua grandeza, pura e eterna,
não pode tomar, por força ou encanto,
o infinito que é meu.
"Nada mais aflitivo do que um rio seco e uma piscina vazia.
Nada que mais relembre a vida que se foi, do que esses dois esqueletos da água.
Olha bem para as coisas que deixaremos de ver para sempre.
Privilegiada semente que brilharás amanhã como fruto na árvore imediata." (Aníbal Machado)
não como quem a muitos chamou assim,
mas como nunca se ouviu
ou ouvirá a si mesma outra vez dizer.
A festa se encerra
ainda que a música toque
o que habita algum lugar do tempo.
Meu convite se perdeu.
Poderia pra sempre ficar
e sem saber,
nessa dança insana,
ouvindo a voz incessante
me implorando a valsar.
Ninguém mais saberia
ou jamais viveria assim.
É por isso, amor,
Que apesar de saber
e duvidar,
de tudo o que mente em mim,
não posso esperar
até que seus olhos me encontrem.
Poderia pra sempre encarar
os seus lábios
até que me peçam pra voltar.
É questão de tempo essa prece,
que com todo o cuidado se exprime,
proibida de espiar.
Com todas as vidas e cores
que vi em nossas mãos,
essa vívida dor
me faz longe de mim.
Ao meu amor, eu digo:
Você é verdade,
grande, tão grande,
dia após dia,
clama um pedaço como seu.
Mas a sua grandeza, pura e eterna,
não pode tomar, por força ou encanto,
o infinito que é meu.
"Nada mais aflitivo do que um rio seco e uma piscina vazia.
Nada que mais relembre a vida que se foi, do que esses dois esqueletos da água.
Olha bem para as coisas que deixaremos de ver para sempre.
Privilegiada semente que brilharás amanhã como fruto na árvore imediata." (Aníbal Machado)
quinta-feira, 2 de março de 2017
let go
continuo a me despedir
dia após dia
aceno em adeus
ainda
meus pés não se movem
os seus olhos já se foram
assim como a mulher
que os fitava
assim como alguém
que sentia
e podia respirar
continuo sem saber
aonde você está
se procuro por mim
ou por quem você achou
por alguém que restou
porque se não houve sombra
de amor ou desdém
se não resta a febre
ou uma gota de suor
porque é que sem lembrar
(e por querer esquecer)
insisto em continuar?
a cicatriz se fez falsa
e meu pulso resiste
em eterna exaustão
como surdo
velho
cansado
e teimoso
tudo muda
e falho em desaparecer
como um vício
não contente em saciar
os meus gostos
amargam
porque se sabem
iguais aos seus
tudo que fui um dia
se quebra
em recusa a lembrar
que tudo lembra você
não existe caminho
as pernas plantadas ao chão
e os braços a acenar
são parte de um todo
que não é mais nada
não existe ir
não existe chance
ou lugar
teimo em partir
em destino
como quem tem escolha
e desapareço porque sei
que não existe adeus
deixar ir
seria deixar-me ir
e já não [me] resta
é preciso carregar
com esses braços e pernas inúteis
o amor que se perdeu
o ódio que não se sente
e o eu que se desfez
se não há escolha
ou orgulho
ou memória
levarei comigo
o que não se solta
até que eu possa caminhar
o adeus nunca dito
até que eu não insista mais
em voltar
"You are the hole in my head
You are the space in my bed
You are the silence in between
What I thought and what I said
You are the night time fear
You are the morning when it's clear
When it's over, you're the start
You're my head and you're my heart
Would you leave me if I told you what I've done?
And would you leave me if I told you what I've become?
'Cause it's so easy to say it to a crowd
But it's so hard, my love, to say it to you alone"
dia após dia
aceno em adeus
ainda
meus pés não se movem
os seus olhos já se foram
assim como a mulher
que os fitava
assim como alguém
que sentia
e podia respirar
continuo sem saber
aonde você está
se procuro por mim
ou por quem você achou
por alguém que restou
porque se não houve sombra
de amor ou desdém
se não resta a febre
ou uma gota de suor
porque é que sem lembrar
(e por querer esquecer)
insisto em continuar?
a cicatriz se fez falsa
e meu pulso resiste
em eterna exaustão
como surdo
velho
cansado
e teimoso
tudo muda
e falho em desaparecer
como um vício
não contente em saciar
os meus gostos
amargam
porque se sabem
iguais aos seus
tudo que fui um dia
se quebra
em recusa a lembrar
que tudo lembra você
não existe caminho
as pernas plantadas ao chão
e os braços a acenar
são parte de um todo
que não é mais nada
não existe ir
não existe chance
ou lugar
teimo em partir
em destino
como quem tem escolha
e desapareço porque sei
que não existe adeus
deixar ir
seria deixar-me ir
e já não [me] resta
é preciso carregar
com esses braços e pernas inúteis
o amor que se perdeu
o ódio que não se sente
e o eu que se desfez
se não há escolha
ou orgulho
ou memória
levarei comigo
o que não se solta
até que eu possa caminhar
o adeus nunca dito
até que eu não insista mais
em voltar
"You are the hole in my head
You are the space in my bed
You are the silence in between
What I thought and what I said
You are the night time fear
You are the morning when it's clear
When it's over, you're the start
You're my head and you're my heart
Would you leave me if I told you what I've done?
And would you leave me if I told you what I've become?
'Cause it's so easy to say it to a crowd
But it's so hard, my love, to say it to you alone"
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