“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Lugar

Pra onde vão
coisas não ditas?

o gosto de ontem
o que não se ouviu

eu preciso dizer
que carregaria o mundo
mais uma vez
mas nunca mais

houve o tempo
de acreditar em tudo

eu não ouvia nada

pra onde vai o amor
o medo na minha voz
a imensidão dessa dúvida
o tamanho daquele sonho

quando o cansaço é maior
que o final





Novo

não se apegue
às coisas bonitas

ao lado da cama
ou uma memória
tão perto

não é preciso lembrar
há dentro de nós
tudo o que finda
e algumas coisas
não devem permanecer

é preciso vir primeiro
assistir o amanhecer
deixar-se ir

há sempre algo mais
dentro do adeus

há um rosto novo
que recorta o passado
como se lembrasse
de mim
 e soubesse
eu preciso rir
outra vez


antes de ir embora
preciso ver os cantos
da casa
vazia

a minha história
tão forte
edifica qualquer adeus


Viagem

fiz as malas devagar
durante anos
guardando o que importa

o que doía
o que sorria
embalados
a duras penas

fiz as malas devagar
talvez sempre tenha havido certeza
ninguém iria ficar

era hora da mudança
fiz da soleira da porta
o maior obstáculo
era escuro depois do portão

mas era hora da mudança
 impossível ficar
 mais ainda conter
o que precisa ir embora

não restou tempo
pras suas lágrimas
chovia muito
elas não viriam

por isso, amor
eu fiz as malas noite adentro
como quem esperava poder ficar

não há o que dizer
sobre o breu lá fora
e o seu rosto
virado sempre
pra outro lado

ser quem vai embora
é tempestade
e ser quem fica
é rezar e dormir
sonhando algo diferente

talvez eu não volte mais
ficaram algumas coisas no armário
tanto tempo atrás

e por mais que eu precise ir
como é que se arruma uma vida
devagar