“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Patior

sei tão certo aonde ir
sei de cor os motivos
os seus lábios
e o encanto
de adormecer

sei tão bem dos seus olhos
que precisei acordar
precisei acreditar
não soube voltar

amor
o que você diria
se soubesse
o perdão é a única estrada
levando até você

irmão
aonde você iria
se pudesse
ver mais uma vez um sorriso antigo
esperando por você

amigo
não ficaríamos
se o futuro não fosse de graça
se a gente não desse sorte
se a gente se distraísse
e descobrisse o que é amar

requiesce

o fantasma não é o mesmo
e ainda assombra o quarto
o silêncio
a paz

lugar nenhum esconde
a saudade
a verdade
é que o erro não dorme
não canta
não vai

a verdade é que eu venderia
um pedaço desse escuro
por uns trocados
que pagassem qualquer sossego barato
daqueles que não existem
e não cansamos de procurar


Vestígio

Sei do tanto de mim que eu perdi. O esforço em lembrar dói.
O medo de você dói mais.
Parece comédia, resido no mais antigo clichê - o lugar em que eu nunca acabaria. O famoso lugar.
Não parece tão ruim até o momento em que começo a procurar a saída. Vai além de saber aonde estou e o que preciso mudar. Vai além da mudança.
O mais irônico é que o clichê possui mil espelhos me encarando, quase que vingança, um clichê exponencial rindo por último. A tortura do óbvio.
Os conselhos, os pesadelos, as mentiras. Todas as circunstâncias mais clássicas me alcançaram e provavelmente algumas mais ainda estão em meu encalço. Por mais que eu tenha esperado acontecer, os grandes clássicos precisavam do elemento surpresa, do ridículo em ser inesperado.
O clichê é menos doloroso do que parece e menos familiar do que eu imaginava. É como uma pergunta antiga que não pode mais esperar resposta. A pergunta agora é a sua vida e pesa demais. É como a primeira vez que eu percebi estar só.
Como é que se diz adeus?
Como é que se ama alguém?
Mas agora o peso pesa na história.
Como é que se ama e diz adeus?
Como é que se ama quem esquece o amor?

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um hábito

caminho pela estrada mais longa
e a graça da fé se aventura
por onde quer que o vento vá

a paisagem parece vazia
a verdade presente como o ar frio
como dizer do ar frio
ou do medo de você

as ideias deixaram falhas
e revivem uma cena
que descreve, insana
como é infinito dizer
"Eu sei"
e o que se sabe
sempre foi hora marcada
passagem comprada
a manhã seguinte

uma noite longa demais
são muitos desejos arcaicos
sob a poeira dos dedos
e das malas pesadas
nunca desfeitas
tudo o que foi jovem
basta como vela
ao lado de quem beira
não tentar de novo

um poema tão antigo
quanto o hábito perverso
de querer terminar histórias
mais perdidas que o gosto
em saber outras coisas
além do fim

tento contar
e por mais que soubesse
não buscaria mais tempo
ou êxito
a verdade é que eu deixaria
um rascunho
rabiscos sem fim
um livro todo
pra dizer que eu sabia
e precisaria lembrar

mas a única forma foi essa
um depois a altura
ao pé da página
preciso e nostálgico,
um dócil aviso:
uma só dedicatória.