“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

segunda-feira, 31 de março de 2014

Afiado

é preciso viver
e viver silencia qualquer barulho
que confunda o que resta de nós

é preciso ajoelhar
quem ajoelha entende
o que se perde por negar
negar é partida de um jogo eterno
jogadores esquecem
não há perda ou glória
pra quem não desabar

é preciso deixar
conhecer-se
desvendar-se
ao menos uma vez
pra que se entenda o outro lado
o outro rosto
o outro amor
que não cabe em você

aceitar
por mais preciso o corte
permanecemos
esperamos
por mais cortante o fio
não corta a fé

amanhece preciso e insone
não encontra a parte cega
que não se deixa cortar
e não se cansa se nunca encontrar
mas é preciso também o som
do que sempre resta

é preciso lutar

longe

acorda
vim pra te dizer
que mesmo sem abraço
sem compasso
sem paixão
o dia vai continuar

não sei do futuro
da tua história
mas sei dessa batalha
dos olhares mirando longe
não há ninguém do outro lado

sei daquele rosto
daquele rosto que não olha pra você

escuta
não espera
a tua luta não é vazia
aquele alguém que é seu
não vai a lugar algum

conheço aquele rosto
aquele rosto nunca olhou pra cá

levanta
a pena pode te caber
mas há sempre algo mais a se vestir
eu sei do abraço partido
de tudo que hoje fugiu

conheço aquele olhar
olhar de pressa
de culpa
de quem não precisa parar

mas cada escolha diz
o seu tempo não passou
a fé remonta o tempo
a promessa
até todo olhar
olhar de volta pra você

quinta-feira, 27 de março de 2014

graças

seu poema não tem nome
é parte meu
e sempre
todo seu

maior que a minha fé
seus olhos ascendem
como quem não tem medo
ou direção

o seu nome não diz
das partes suas no escuro
a luta
a sua pressa
sua ausência sempre à frente

a quem agradecer
pelo seu poema estar aqui
quem diz que a graça
está em não saber


quarta-feira, 12 de março de 2014

fogueira

acendo a velha lâmpada de escrever
moro ainda aqui
não falharam as palavras
tardaram somente os motivos

queimam os velhos rostos e vozes
aparecem ainda aqui
não em ódio ou desafeto
vieram por si
como quem revê as fotos

a toda hora
passado e futuro correm
como quem abre a sala
há muito escura

ninguém está aqui em nome de alguém
a memória cede
como se lesse uma carta há muito esperada

espero também
como quem senta no prédio tombado
rever os quadros das paredes
os sorrisos de chegada
o vento batendo a porta

ninguém aqui conta histórias
ou encena batalhas
juntos sentimos coragem
não dor ou saudade
ao viver em silêncio
como quem sabe a hora do adeus

altar

os meus pedidos
tantos deles por você
voltam e dizem adeus

o lugar por qual caminham
é distante da minha prece
onde os erros são estradas
e as noites são estrelas

meus versos recitam
tantos deles o seu rosto

da raiz que cresce o medo
não sei dizer

rezo pela parte
de não esquecer
que raiz
é semente que se planta
e nesse lugar
não encontramos sementes de adeus

quinta-feira, 6 de março de 2014

adiante

agora temos tudo
até as coisas que não dizemos

sabe,
entre os meus problemas
e seus sonhos
eu lembro
até do que podemos ser

podemos fugir
até nos perdermos de novo
até que o vento sopre forte
e a distância cresça muito

 agora temos medo
e acordamos felizes

ainda não fomos embora
mas entre a nossa vida
e esse adeus que nunca vem
eu lembro
podemos ser