“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

domingo, 30 de abril de 2017

P.s

Enquanto eu escrevia
Sobre você
Muita coisa mudou.

Os meus cabelos brancos,
A minha falta de horário
Eu fui ausente de tudo
E morri de medo.

Enquanto eu dizia
De nós dois
E do que continua
Eu perdi o rumo

Deixei muito pra trás,
Mas você sabe
Da parte minha
Que não existe
E que errou
E quis acertar

É esse problema
Do que é muito cedo
Quando não há tempo
Algumas coisas morrem
Sem prazo
Ou aviso

Eu queria a sua vida
E disse tudo
Mas agora,
Eu sei da espera
E do que não pode esperar

Planejei os detalhes
E pequei em excesso
Em querer demais

Um dia falaremos
Do que foi muito
E talvez lembremos
E faremos
Um milagre

Pode ser
Que tudo
Não tenha passado
De um sonho

Talvez tenhamos
Amado demais
De maneira ou outra
Você é uma prece
Que fiz quando tudo
Parecia acabar
Você é começo
E resiste
Ao tempo
Você nunca se atrasa
Sempre na hora
Sempre em mim.

Correspondência

Você mudou a minha vida
A minha inconstância
Minhas palavras

Quando eu só sabia continuar
E ser mais forte
Você falou mais alto
E renasceu
Tudo o que eu era
E havia perdido
Tentando crescer

Amar não é certo
Não é ajustar um relógio
Que não diz as horas
O amor é caótico
E se encontra
Perfeitamente
No momento errado
Debaixo de chuva

O amor incomoda
E envelhece
Sábio
Vive o que pode
E esgota as possibilidades

Sabe,
Eu já fui mais só,
Eu já perdi a fé.
Mas você,
Você é uma coisa nova
Dessas que só existem
No folclore
Eu não queria isso
E eu nada tinha de querer

Na minha loucura
E nas horam que não passam
Eu sou pequena.
O meu pranto não conta
O melhor lado
Que vive em você.

Eu esqueci algumas coisas
Quando saí com pressa
Queria muito dizer
Que você foi tudo
Mas cheguei tarde

As vezes a hora passa
E só podemos contar
Com o fim
Talvez haja recomeço
E seguiremos pensando
No que seria bom

Nós não somos
Bons ou imperfeitos
Estamos cansados
E nos encontramos,
Exaustos,
No meio da multidão.

O encaixe exato,
A solidão.

É justo que sigamos sós
Sem saber
Da história
Sem sentir o resto?

Escrevi uma carta
Que continha o que eu disse
E um pouco mais
Exagerada e exata
Eu não sabia mas era
Uma carta de adeus.

No final eu te amava
E em todos os tempos
Sigo acreditando
Em algo
Além do fim

Sua,
Sempre.

Imortais

Somente dão voz
Ao que dói e respira
Os verdadeiros amantes
As histórias mais leais
Ao que habita a alma
E consome a mente

Como lâmina que adentra
O âmago
E ali vive
Eterna
Disseca todo o resto

Somente os que vivem
Com uma parte ausente
Sabem da vida
E dão luz a histórias
Humanas demais

Sabem que é possível amar
E seguir
Viver de um passado
Despedaçado
Ausente de si

Os amantes desvairados
Que entornam as taças
E lembram de tudo
E tatuam em vermelho
O que queima
E rouba
Tudo de si

Que descem as ruas
E assustam as famílias
E falam de algo
Secreto e intenso
E tão imenso
Que destrói o que é certo
Desafia as leis
Desfaz o tempo
Desconstrói a herança
E gasta a moeda

Aqueles que viveram
O que vive esquecido
E que lembram tudo
Quando se lembra alguém
Sabem mais
E debocham de tudo
Todo dia vivem
Tudo de novo
E doem como se nunca
Tivessem conhecido
Algo além do êxtase
Do segredo contado entre almas
Quando se ama alguém
Nada mais incomoda
Num corpo oco
No exílio de um amor que morreu

São histórias longas
Como um velório sem fim
Aqueles que amaram em febre
Não sabem enterrar
Dizem adeus todo dia
E já viveram demais
Como quem sepulta todo o resto
E não precisa de nada além
Daquele pedaço de tempo
Que existiu
Como nada mais existiria
Ou honraria a existência
Como o mais nobre segundo
Que não acaba jamais

Os amantes passados são ébrios
E isanos
E a única coisa que lhes toca
É falar do que arde
E como ninguém
Descrevem tudo com olhos jovens
E almas arcaicas
Que precisam ver o amor
Viver mais
Precisam ver lágrimas jovens
Que herdem deles
Algo que não seja vazio
De paixão e idade
De posse e entrega
Precisam contar
Que não existe nada
Além
Das almas trêmulas
Do laço do tempo
Do toque no escuro
E dirão pra sempre
Que o único ouro da vida
Vem do único valor
Impossível calcular
Da agonia em amar

Breu

Existem palavras melhores
E o que nunca poderei dizer
Não sei contar histórias
Só sei assistir o que passa
E de relance
Some de mim

Agonizo pelos dias melhores
Que passaram
E morrerão
Como memória
Do que nunca existiu

Como foto guardada em gaveta
Como o que se esconde em rancor

Existem linhas maiores
E falam de dentro pra fora
Que reconhecem a alma
E cantam canções
E falam infinitos idiomas

Eu não sei escrever
Mas queria contar o que vejo
Quando olho pra você

Eu não sei explicar o que ficou
E nem o que seria
Se eu soubesse chegar
Se eu soubesse nadar
Nesse rio que corre
Se eu fluísse
E pudesse desaguar

Eu desafio
Os maiores amores
A encontrar as palavras
Ainda assim eu diria
Nenhuma delas é lar
Sob o teto que erguemos

Mas eu não sei
E por não saber desgraço
Esse amor e a culpa
Por não saber eu sigo
E é infinito o olhar
Eu sigo olhando pra trás
Eu preciso ver o seu rosto
E imaginar o que seria
Se eu soubesse amar

Mas é segredo
O que sussura minha mente
E embrasa o peito
E cega os olhos

O que fala de noite
E faz meus braços abismo
Sangue
Poesia
Lembrança
Eu preciso do corte
Mas as palavras traem
Jorram as memórias
Noite afora
A ferida aberta, o silêncio
Amantes do escuro
sórdidos
sádicos

Não existe língua que fale
Ou traduza
O que vive em mim

De ouro

Sigo fascinada
Com o tempo
E seus ardis
Sob um sol que queima
E ilumina a volta
A todos os lares

Eu sei do meu coração
Que precisa crescer
E brilhar
Ser maior que os amores
Que a noite
Maior que a minha paz

A busca por um dia
Melhor ou pior
É uma jornada torpe
Maltrata o ego
Maldita a hora
Em que precisei caminhar
Mas no silêncio do céu
Encaro só
Os vazios e os tesouros
Que passaram
E continuam sem lugar

Temporal
Cabelos brancos
Longos
Sorrisos afogados
Jóias atiradas ao mar
Na esperança do tempo levar
O que não naufraga

No final de tudo
Nesse vendaval
Os olhos reluzem
E perdem de vez o fim
Os corpos e as almas
O tempo e o imortal
São pacto
De todos os destinos

Depois de tudo
Ao fim do caminho
Ainda há chance
De imensidão
Da visão do tempo
Do mais simples suspiro
De nada mais

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Desde

todo o amor que desperdicei
carrego junto a mim
como a roupa que visto
todas as minhas mentiras
escritas em mim
como mapa
como a fome que sinto

não existe vida
depois desse caos
e todo dia
morro dos erros
e das ausências
na esperança que eu viva
ou sinta algo além
das ruínas
do chão que cede
ao fim do dia

já soube de gritos
e não acreditei
que alguém gritaria por mim
mas eu sempre ouvi vozes
e despedacei,
distraída,
o que era bom
mas na verdade
não era meu
e os destroços
do que eu não sentia
chegaram mais longe
 porque tiveram olhos
e a coragem
de todo o amor que não dei

e agora
nada do que resta
é algo em que se acredite
as horas falam
e tudo que vive duvida
de um lado meu
que esteja aqui

a prece termina
outra vez
sempre
sempre
em partida

Inconsciente

choro pelo vazio
pelo que não posso tocar
pelo que apaga
e fica entre o tempo
e a dúvida
algum dia
outra vez
são todos tons de adeus
o que existe não cessa
o que é agora não some
ficam perguntas não feitas
são corpos e vidas e histórias
que não vivem
pairam no ar
são muitos sonhos a acordar
muitas as ausências da mente
sem saber para onde
seguiram as mentiras
seguimos sem saber
como seguir

mesmo sabendo o caminho
as mãos não se tocam mais
tampouco o conjunto dos corpos
acalma o tempo
todos esqueceram como parar
vivo a me perder
por olhar demais as horas
por cansaço ou ingratidão
ninguém enxerga os caminhos
todos abandonaram a estrada
o que se vê
 antes de adormecer
o que dói
de olhos fechados
e percorre cada passo
e reside na própria pressa
 é o único destino
uma única jornada
a se abraçar
a dor é o encontro
de tudo o que foi
ou segue perdido
em todos nós

Cacos

sempre há algo falando mais alto
cortando a noite
como mensagem distante
algo novo e velho
como em sonho
 o que se reconhece

estão aqui no escuro
os sons que não pausam
cada uma dessas cartas
são pedaços de um vidro que quebra
e sem endereço é entregue
à  memória de um tempo
que nunca se esgota

são meus os estilhaços
e os sonhos que não falam
atiram-se e se sabem armas
contra a ausência que fica
 e o infinito renascer
de uma única prece
acesa em vela
de uma sombra na parede
do segredo nos lábios

 há uma voz em tudo
e uma única lei
a força presente
o reflexo da fé
esculpido em jura
a palavra dita
quando não havia fim
e tudo iria ficar

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Infância

As vezes resgato um amar
E peno num novo sofrer
E lembro tudo de novo
Quando o querer
Era sem consciência
Quando tudo era
O que parecia ser
Lembra do seu amor
Que me criou
Você me salvou
Quando não havia pressa
Você soluçava
Mas tudo era novo demais
Lembra das palavras
Que ensinaram o caminho
De volta pra casa
Ou pra longe de mim

Eu sei que fui ensinada 
a crer
Mas eu não vejo exatamente
Como é que acredito
Se já desisti
E peço perdão
De todo o credo e razão
Essa foi a última
E única
Que sobrevive
Esse adeus que vive em mim

Amor nenhum permanece
E essa talvez
Seja a mais bela e arcaica
Agonia
Nada se encontra
em amar e viver
Além daquele tanto que ficou
Enquanto só resta esperar

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Eterna

não é sobre ter de volta
algo que era meu
eu sempre fui perdida
e atrelada a essa busca
fadada ao acaso

não é sobre encontrar
o rumo
ou qualquer outra coisa banal
eu nunca tive direção
ou história certa

não há muito que me acalme
ou o que eu sinta que posso ter
qualquer lar seria fútil
e nunca conteria
a necessidade que sinto
em deixar
coisas
espaços
pessoas
e vazios

qualquer teto estaria
entre o meu olhar
e o céu que eu preciso ver
o pedaço de nunca
eu preciso ter essa febre
eu não sei pertencer

dizem que a luz se faz
com o tempo
e a reza
mas não há cura
para esse lado meu
que não segue
e não ouve
outros caminhos
senão o que cisma
em perseguir

eu preciso perder
preciso morrer
dessas paixões que me bastam
preciso não ter razão
mas eu teimo
e até hoje não houve
jogo justo
ou verdade barata
que me tirasse de mim

como se eu pedisse quente
e ganhasse morno
eu não quero calma
e tampouco entendo
quem parou no meio do caminho
do meu caminho
como se eu quisesse queimar
e virasse fumaça
eu preciso sumir
até restar somente
o que me tira a razão

a noite toda
sonhei que estava aos prantos
mas me deram coragem
e péssimas escolhas
entre todas as coisas
que perdi e fiz questão
tudo o que destruí
e escolhi suportar
está uma mulher
 que habita o íntimo de si
e vive a carregar o que quer

a soma dos amores
e das quantias
não me fizeram rica
as letras e os calos
me instigam a perguntar
percorro
os próximos
 passos
amores
países

eu carrego a mulher
dos meus sonhos
e carrego os sonhos
sob meus ombros

entre o medo de ser
 e querer muitas coisas
há uma mulher que teme
e veste o medo
mesmo aos pedaços
sai de si
e de tão inteira desponta
 outra vez
faz-se viva


perdão

eu te amo
com toda a minha estupidez
e mania de dizer a verdade
a qual repito, tão óbvia que é
como a chaleira que apita no fogo
o armário bagunçado
como quem chega em casa no fim do dia

se o que me consome
é saudade
ou culpa
ou muito dos dois
pouco importa

agora tudo já foi
e nada descansa
ao meu lado eu vejo
a sua sombra
desde então não houve luz

eu tinha pulso
e a voz firme
de quem tinha aprendido
mas a lição era outra

eu tenho raiva de você
como que pra matar
o que ficou
mas a verdade é que eu te amo
com a mesma pressa de antes
e sem compasso algum

como se eu tivesse esquecido algo
 e não pudesse buscar
ainda que tivesse as chaves
não poderia mais entrar
e nada é maior que isso
na confusão de quem ficou

há uma parte minha
perdida por aí
que anda e sente
sem que eu não saiba
e nada mais faz sentido

eu sei que é adeus
e é tão simples
como o sol na janela aberta
e o café sob a mesa
como uma vida que passa rápido
e o emaranhado do tempo

perdão
é que eu te amo com a certeza
e o intuito
e com tudo que me é familiar
como quem espera um milagre
nesse caminho que não se perde
eu só sei continuar

terça-feira, 18 de abril de 2017

corpo e alma

vão-se as palavras
ficam as marcas

pele
e pesadelo
é como se eu não acordasse
ou não vivesse

viver com essa alma
insana e intensa
é o pior dos meus pecados
não sei nada além da entrega
e do que se repete
como se não houvesse memória
ou erro
ou depois

viver dessa alma
que não sabe caminhar
e corre a minha frente
e abraça o meu corpo
quando ele mesmo se encolhe
de medo
diante a agonia
em viver solto
e tão junto de mim

eu não sei
o tamanho do passado
ou se um dia virei a ser
tudo que aconteceu
mas amanheço nova
e amarga

se a minha dor durasse
e eu pudesse ver
o tamanho do estrago
talvez eu vivesse menos
e pudesse chorar
pudesse enfim
ir algo além
mas a alma flutua
e entende
impera
e pela tempestade
dos meus raios
corpo, alma
e trovoadas
voamos sem tempo
sem culpa
sem lar

até quando

Ocupo agora o meu inferno particular. Toda a minha irreverência se voltou contra mim, desatinada e furiosa. Sabemos nós duas, eu e a parte minha torpe e surda, que não podemos continuar assim. Não posso mais deitar, sair e beber como se fosse inteira. O curioso é que me apressei, quis calcular quanto tempo dura uma perda, desafiei a dor. Eu achei que eu fosse mais forte, achei que eu seria maior. Calculei errado o tamanho da queda - erro de quem nunca havia pulado antes.
Pois bem, a perda não dura, ela é. Sutil como a memória, lentamente leva tudo. É cruel como olhar as horas e não saber a hora certa.
Eu não tenho mais o que oferecer ao tempo. Não tenho mais barganhas, promessas ou pedidos. Tudo que tenho é essa vontade de desaparecer.
A certeza de que não há história a ser contada é pesada. Eu sei que não há caminho de volta enquanto essa memória existir.
Se você nunca tivesse existido eu teria uma chance. Mas você existe e existir não basta, você fica. A ideia que eu tenho, a roupa que eu tiro, a linha que escrevo. Você não está aqui e isso deveria ser suficiente, deveria ser tudo, mas é só o que eu repito a mim mesma. Você não está aqui.
A perda é o que permanece sem deixar rastros, uma prece sem fim. Não sobram vestígios que reafirmem minha sanidade. Eu quero sair, mas encontrar saída envolve a busca e eu não sei pra onde olhar. A perda é o alívio que eu sinto logo antes de perceber que você ainda está aqui. Abro os olhos e vejo o lugar em que eu não deveria estar. Você está aqui.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

muro

esse lugar vai ser um lar
ainda que demore
a se achar um retrato
um enfeite
demora recomeçar

se você não consegue dizer
ou gritar
alguma coisa que valha
ou mude essa ideia
da força que falta
 se nada se mexe
e você sabe
então
existe outro lugar
e os nossos lugares são tão distantes
eu não posso ficar
 
e não posso entender
ou não olhar
eu preciso ver
o que foi feito
dessa falta de tempo
e de força

como é que se força a verdade
pra fora daqui
eu quero outra mente
outro ímpeto
outra alma fácil
que não tenha coragem demais
outra razão
que não atenda a pedidos
ainda que se peça novamente
ainda com voz suave
outro amor banal
que não prometa nada
nunca
jamais

esse lugar vai desmoronar
eu não quero alguém que fique
tampouco um desafio
quero o que é inteiro
e sem medo do que é

eu não preciso de nada
e ainda assim
sou obrigada a provar
da taça que bebi ontem
e quebrei no escuro
do sono que já não sinto

construo ainda o lugar
posto abaixo
consumado no chão
não importa o tempo
ainda que eu vague
imperfeita
fadada a recomeçar

algumas coisas continuam
mas pedra sobre pedra
eu divido dois lados
até que algum ganhe
ou pare de tentar

além

todas essas linhas
me traem
e seguem rindo

riem porque sou tola
e demoro demais

agora as coisas
voltam ao normal
e pouco a pouco
algo se perde
e eu esqueço
o caminho
esqueço de andar

eu nunca fui posse
ou concordei
eu jamais obedeci
mas já não ouço
nem a mim

 eu deixo
as coisas
os olhos
pra trás
eu torno os traços escuros
esqueço de amanhecer
e de nada nunca me bastar
eu vivo firme
mas não quero mais ser forte

quero o que tire tudo
de novo
o que me prove errada
e destrua de vez
essa história sóbria
e morna

até que não sobre nada

chama

não é engano
é uma guerra
que dia e noite
se esgueira pelos cantos
se levanta pelas manhãs

é um mal que não se extirpa
a chama que não se apaga
todos sabem
aonde queima
e todos
seguem queimando

todos copiam
os caminhos
as letras
e se afastam
como nunca
porque não vivem
 e não vêem

quando na madrugada
o corpo se curva
e a alma envergada
se quebra em vazio
aí está a verdade
o incêndio

todos morremos de amor

sábado, 8 de abril de 2017

Chegada

escalei uma montanha
e no caminho
as coisas pareciam
feias
e maiores que eu

no meio do caminho,
a chuva e a distância
diziam com o vento
eu havia ido longe demais.

ao fim da viagem,
tudo era apenas início.
o céu era imenso
e ser menor que todas as coisas
era o maior alento

vi os abraços
e os sorrisos da hora certa
vi os ciclos
que se fechavam
e nunca paravam de começar
 vi o seu rosto
e eu soube

as milhares de estrelas
eram as preces
e infinitas
eu jamais poderia agradecer

enquanto eu deitava
à beira do que deixei pra trás
e do que já não é mais
eu vi as cores do adeus
e entendi o que não pude dizer
todos nós iremos
até que possamos chegar

abri as mãos
e soltei a parte minha
que eu não devia segurar
a viagem é longa
escura e vazia
e subindo a montanha
é possível sentir o peso
que não se deve, jamais, carregar.


"And love is not a victory march
And it's not a cry that you hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken Hallelujah"

Armário

Todos nós enxergamos a fraqueza nos outros, nas coisas, no silêncio, nos gritos. Mas vemos em nós mesmos tudo que abandonamos? Vemos todos os nós que deixamos de desatar? É tão simples esquecer os inconvenientes.
O problema começa quando é demasiado esquecimento. O caos surge e é tanto deixado pra trás que se torna verdadeiramente impossível rastrear o que incomoda. Os nós envolvem nossos pés e não conseguimos mais andar. Quando tudo dói, como se encontra o foco da dor?

Abracadabra

Por muito tempo estive só
E deixei o que era demais
Em lugar nenhum
A ser encontrada:
 A minha melhor fraude
O que eu dizia no escuro,
Nunca vivia em claro.

Eras e eras,
A mira era minha.
Até que me tornei
o alvo,
a queda,
o som do corpo
caindo ao chão.

A minha boca era mistério,
dizia os feitiços
em todas as línguas,
e de tanto maldizerem,
todos os meus encantos
tomaram o meu corpo
e deixaram- me oca.

Chega o dia,
encontra-se o que foi perdido
tudo o que se quebrou
toma forma.
O inferno de todas as dívidas.

Todos os meus amores
morreram.
Todos os meus feitiços
falharam.

Desfaço-me inteira
e só assim me levanto.
Ando de volta os passos dados
caçadora de mim.


"Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

sexta-feira, 7 de abril de 2017

the end

this is how it goes
distance only grows
apart
away
unbronken

no matter who you are
this is how you go
without saying
your mouth is goodbye
your soul is unbound

your smile is fading
still asking where you are
 what if you know less than me?




"Nobody broke your heart, you broke your own because you can't finish what you start."

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Ventania

Embora o esforço
Leve uma parte de mim
Em troca de silêncio
A minha prece continua
E meus braços constroem
O que quer que seja
O meu lar

Essas são as últimas horas
Do tempo que deveria passar
Embora a espera tenha sido
Cruel e cara
Eu nunca soube esperar
Sigo costurando 
A parte que rasga
Linhas, agulhas, promessas
Como eu puder reparar

Talvez eu tenha o dom
De desejar outro amanhã
E de querer algo 
Que soa exatamente o que é
Eu sei o que pedir
E o que fazer
Mas a verdade é que eu não sei
O que será de mim
Quando a hora chegar

Anos a fio
Eu morei aonde podia
Tentei ver além
Das falhas insones
das luzes apagadas​
Precisava levar nas costas
O mundo ao redor
O meu coração que caçava
Algo além da força 
Bruta e estúpida
Tomando o espaço
Que sentia sede 
E fome
Por muito tempo
Eu não pude sonhar

Sigo ainda remendando
O ponteiro custa a girar
Os meus passos rápidos
Caminham a um altar
Que nunca cederá
Fotos e rostos e frases
A única parte minha que sente
O resto é pedra
E terra
Apenas estrada
Nada mais demora
Já faz muito tempo
E eu preciso andar


"And I'm damned if I do
And I'm damned if I don't
So here's to drinks in the dark 
At the end of my road
And I'm ready to suffer
And I'm ready to hope
It's a shot in the dark aimed right at my throat
'Cause looking for heaven, found the devil in me
But what the hell
I'm gomna let it happen to me."

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Desenganado

Tenho inventado palavras novas
Que definam quem sou
A língua que falo não basta
Letra nenhuma abriga
Da chuva
Dos dias mais longos

Tenho vivido a beira de mim
Meus sonhos loucos
Minha voz rouca
Não bastam
Pra que eu perca de vez
A razão

As perguntas que faço
A todas as coisas mudas
Tetos, janelas
Você
Calados como se soubessem
É questão de tempo
Até que eu perceba

Saio e torno à casa
E a música que embala a noite
Não distrai meus ouvidos
Preciso ver outras coisas
E a bebida que eu bebo
Embriaga os outros
E não turva minha visão

Eu sei, eu sei.....
É hora de me despedir
Uma prece, um beijo
Um passo atrás do outro
Até que se chege em algum lugar.
Eu sei.

Mas é que venho caminhando,
Distante
Imaginando o lugar
Em que eu enlouqueceria
E de todas as crenças
Nenhuma resistiria.

Nesses passos
Eu vejo o mesmo filme
As mesmas horas
Gastas as minhas pernas
Doídas como tudo mais
E certeza nenhuma
Parece querer deixar
A cena, o sono,
Ou minha face voltada
Para a única busca
Que não posso buscar.

O que me resta?
O vento a gritar
As perguntas de volta
Jogadas no ar
A verdade óbvia
Gélida e velha
Cansada de esperar.

É cedo, é tarde, está na hora.
Eu sei
Mas saber não basta
E não cessa
Quando ajoelho
Tornando a rezar.

Cairão como o que pesa
As certezas e a fé
No momento em que meus pés
Tocarem o chão.
Eu deixarei esse lugar
Mas agora,
Tenho caminhado em silêncio
Até que as palavras que murmuro
A mim mesma
Encontrem o que eu perdi
Ou escrevam algo novo
Longe daqui.


"Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim"



Candeia

Essa noite, ajoelho
e revivo
Ao padecer
Em tudo que em mim
Faz memória e morada

Morrem as histórias
E as lágrimas desmancham
A areia
Em castelos

Morrem os amores
E últimos suspiros
Como se fossem plurais....
Você, mais do que nunca
Sabe-se singular

Mas você também não está mais aqui
Como todo o resto
Enquanto me despeço
Como o apito da partida
E a assinatura da carta

Sei que estou morta 
E fria
E peço perdão
Pelo esboço de mim 
Impresso em você

Quis ser mais
Mas por excesso de zelo
Ou falta de permissão
Eu tive medo de queimar,
chover em cinzas
E repousar em seus ombros

Há muitos anos eu proibi o amor
Aos quatro ventos e todos os céus
Mas além da minha jura de nada
E dos primórdios do medo,
Você foi a hora e o óbvio

Depois de tudo,
O meu maior temor
Eu queimo em razão
E enorme pesar

Você me fez certa
E tão exata
Quando eu queria,
Concisa, desmoronar

Entenda,
Quando você se despediu
Levou as chances e o sol
Deixou a razão, 
A minha lógica
Em continuar só,
Inteira e inerte

Você precisa saber que não sabe
O quanto dói
O quanto eu queria estender as mãos
E revelar o tanto que ergui
A vista que eu vi

Depois de caminhar
Até a pura exaustão
Você foi a vista,
O nado e o fôlego
E eu pude descansar

Eu diria do abraço
E da promessa a me salvar
Mas você acordou
E em desgraça,
Em segredo eu sabia
Ninguém poderia ficar

Nas estrelas havia um espaço
Inúteis os desejos e preces
Ali, só, eu iria morar

Eu te daria as mãos
Mas sei que por força ou acaso
Eu teria de seguir sozinha
 E por mim, 
Iria sem essa parte nula
Que é o todo do grito
Da falta
De pertencer só

Contudo,
Você é razão
Instinto insano, cruel.
Você é o perdão, 
A ausência do ódio
E de qualquer condição. 

Eu acredito em você 
E em tudo que ficou,
Como uma casa que herda
As memórias e a tristeza,
Como o céu que abriga os desejos
E a saudade

Você nunca ficaria
Pelo pedido que eu não faço
E pela sua confusão. 

De joelhos,
Mundo abaixo,
Certeza sem rumo,
Aposta sem êxito,
Prece sem ânimo.

Tive razão e abdico 
Do que mais vier
Nada permanece
Por culpa ou carma
Você foi tudo o que se perde
Quando não há mais nada

Toda a minha história era segredo
E sepulcro
Por mais que eu quisesse
O amanhã chegaria
E eu sabia da hora da despedida

De todos os tempos e terras
Guirlandas de adeus
Você floresceu
Único gravado em pedra
Fica o caminho
Longo como sempre,
Do seu amor velado
Escondido em mim.

Distância exata,
Previsão descarada
Eu sabia da ida,
Mas não da demora.
Sabia que seguiria só
Mas você habita a estrada.

Ao maior encontro
A menor despedida
Desgosto, receio
Infinita gratidão

Eu sabia do fim e do meu talento
Em prever a partida e seguir a esmo

A maior prova
Do que espera além
É o amargor que não cessa
Tudo resume você
Que sempre teria de ir
Eu só sei dizer adeus
E, ainda assim
 Começaria

terça-feira, 4 de abril de 2017

Majestade

Existem as dores
que vem e vão.
Aquelas que se fazem lembrar
e, contentes,
por satisfeitas
podem dar-se por vencidas.

Por vezes vivi
algo que roubava
segundos e pormenores.
Eram sustos,
e sobrenomes,
sem demora.

Algumas lágrimas
cresceram florestas
e sombras,
úmidas, tórridas,
completas e imperfeitas.

Seguia ainda
reinando em mim.
Cada parte bastava
por moeda própria,
cunhada e que selava
o troco extinto
imperatriz,
solstício,
dias e dias,
eu seria o sol,
o reino,
o repente
e o fim.

Tudo seria justificado,
eu seria a força e o caos
tempestade e temperança.
Os extremos habitariam
e eu existiria
sem prumo,
sem curva,
rainha de mim.

Mas as lendas são feitas
de tudo o que finda,
e embora eu não quebre,
o manto se atira ao fogo.

O que sinto não é dor,
não é fim
e nem sangue
a escorrer pelo cetro
seguro, enfim.

O que sinto é maior
e cabe e abriga
todos os cantos do mar,
cantigas antigas
que insistem em ecoar.

Pode ser que por sentir
e ser só,
eu naufrague sozinha
e reine em paz.
Pode ser que por ser assim,
eu habite o cinza
na nuvem que não chove
e no corpo que não despe
qualquer defesa.
Talvez eu tenha perdido
o que seria de mim.

O amor é um templo,
em que perecem as coisas mais belas,
carentes de tempo
e coragem.
Pode ser que por medo,
ou estupidez,
os meus joelhos rastejem,
e meus olhos laminem
o fio do destino.

As minhas mãos,
estreitas de viagem
e empoeiradas,
abraçam o que resta,
e embalam o meu sono,
cantando:

Não viverás
ao fim de tudo.
Sucumbir é áspero
indigno e ingrato.
Mas finda a revolta
e se a memória migrar,
não viverás
a ver o fim
do seu breve reinado,
como taça que entorna o vinho
roubando a sede dos lábios,
resquício ébrio,
de tudo ausente.

Forte e ferida,
não escondes nada.
És o corte,
a linha,
o sangue,
e o cárcere.

Existem as dores
que nascem apenas,
dotadas do hábito,
da fé.
Sabem-se vencidas,
por retorno ou comunhão,
encantos raros, tão raros
ajoelham-se em pranto
desencarnam em gratidão.

Sobram as adagas
e os venenos.
Espreitam as dores,
não esquecidas,
caminhando sobre a neve,
rastejando sob o chão.

São doces,
tão doces,
fatais.
São crença a rezar
o terço em contas,
envolve o pescoço
e sufoca as preces.

A dor do silêncio
e de tudo que veio
com a coroa do afeto
e do inédito.

Há ainda a dor perdida,
que caminho nenhum há de traçar.
Mas você,
você é a dor que respira.
Dança, vive e roga,
festa em mim.
Você é o limite,
a véspera e o adormecer,
cada linha entre o luto
e onde quer que eu vá.
A luz acesa,
vela e chama
em tempestade.
Noite, dia,
dor liberta,
fértil e febril.

Existe o fim
e o depois.
Você é o restante,
lavrado em ouro,
em brasa,
na pele,
no peito.
A pulso,
resiste.

Norte

eu sei que você disse  a verdade
e que daqui em diante
a certeza é
apenas
tudo o que resta

eu sei que talvez
a sanidade deixe
o cenário
e leve o melhor de mim

mas esse melhor
fadado no escuro
foi descoberto
enquanto eu lembrei
da luz acesa

são todas as formas
o amor que não arde
o amor que consome
o que revira dentro de mim

o amor não faz mal
apenas sucumbe o resto
e se recusa a seguir
e a ser tudo mais
que não é de verdade

eu acredito em você
e é nessa fé
que eu lembro de mim
eu também tenho certeza
nada sai do lugar
torpe
infinito
incoerente

você não é o meu fim
preciso seguir
mas o caminho é maldito
o mapa sem destino
só leva à você

sábado, 1 de abril de 2017

Ponteiro

Eu juro que queria escrever sobre outra coisa. Sobre o cansaço, a vontade de parar, sobre quanto tempo passou. Meu maior desejo é conseguir falar sobre tudo que passou. Sobre o que eu escrevo e os lugares novos que descobri, sobre os meus livros e pensamentos de segundo que pouco a pouco me transformam.
Mas a verdade é que escrever sobre coisas novas as torna reais, assustadoramente reais. Não conheço essa realidade chuvosa, essa nostalgia. Escrever sobre a mudança a tornaria natural e aceitar essa nova realidade como algo meu custa, custa muito. Dividir espaço com alguém dentro de mim resume o caos cego que passei a habitar.
Adoraria dizer que estou em contagem regressiva, no processo final de algo, mas eu ainda - ainda! - me questiono sobre cada passo além desse lugar. Penso duas vezes antes de pedir pra esquecer, simplesmente por ser inacreditável lembrar de tudo em vão.
Desde que comecei a escrever, sinto que falo demais de amor. Mais uma vez, eu sei que amor nunca é demais. O problema sempre foi que quis falar de tudo....adivinha quem estava lá, em tudo?
O problema é que eu talvez nunca tenha falado de um amor que fosse meu, talvez por nunca ter vivido algo de verdade meu. Esperei por algo que me acompanhasse - nada parecia conseguir - e ganhei uma nova sombra, logo eu. Logo eu que queria escrever sobre outra coisa.
A verdade é que não é possível fazer outra coisa enquanto se espera, além de esperar. Por algo velho, algo novo, algo que faça esquecer o pretexto da espera. Algo além desse nada em cada linha sem graça do meu medo de esquecer, do nada espalhado por cada canto são em mim.


"I crouch like a crow
Contrasting the snow
For the agony, I'd rather know
'Cause blinded I am blindsided

Peek in... into the peer in
I'm not really like this... I'm probably plightless

I cup the window
I'm crippled and slow
For the agony
I'd rather know
'Cause blinded I am blindsided"