“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

domingo, 30 de julho de 2017

Na hora

por algum motivo
o meu futuro desenhado
vivia estendido pelo caminho
e nunca houve dúvida
sobre a cor mais viva

sei que o fim
pode ensaiar um mar
e tirar uma parte
que não existia
como se a vida começasse
no exato momento
do despertar em agora

sem saber
contei uma história
que se desdobra em mil pedaçoes
sonhei os sonhos que doeram mais
pensei estar cega
quis estar longe
mas antes de acordar
uma única visão
se dizia verdade

as minhas perguntas no escuro
as minhas orações em tempo
nada se atrasa
enquanto a voz
a prece
o amor
e a alma no corpo
souberem de si

passado
presente
futuro
limites frustrados
tudo o que existir
na verdade
vem depois
e nem sempre enquanto
estivermos aqui

Azar

Já esperei por tantas coisas
hoje me contento
com o silêncio
de todas as coisas
claras
e óbvias

já esperei por manhãs como outras
e noites estarrecidas
por uma vida esparramada
nos braços de sempre
mas sei que a felicidade é um lapso
e um segundo que sempre passa

o resto é esse viver ingrato
essa ânsia sem rumo
hoje eu me contento
e posso repetir mil vezes
estou a salvo
 e ninguém me salvou

 quero meus lábios calmos
e meus passos na beira
e as vezes
esse destino sangra
e quando chove
a minha janela desenha você

dentre tudo o que foi perdido
 descanso o meu olhar
faço as pazes
com as cartas sob a mesa
talvez eu tenha tido sorte
ou perdido o jogo
talvez eu viva pela metade
depois das histórias curtas

Já falei sem parar
sobre o que segue
e me vicia
entornando tudo que vejo
num rio correndo depressa

mas depois dessa agonia
abandonei a pressa
e não falo mais de nada
a beira do rio, da estrada
dos olhos que fecham
agora
sobrevivo de ouvir
entrego os dias
a rendição é simples
eu preciso escutar

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Clichê

sobre o que não se nomeia
e desponta em toda praia
existe em todo olhar
e jamais resistirá:

nunca me arrependi
de ter amado
ou falado de amor

existe uma hora
em que tudo é necessário
tropeços, lamentos
até mesmo o sopro
perto das manhãs
as noites na memória

por vezes
eu soube expressar
e levar na alma
o que estivesse
ao alcance do encontro
e de tudo que quis encontrar

precisei de muitos plurais
e de outros dias
apertando o peito
talvez eu tenha me despedido
mas nunca foi de vez

de qualquer jeito
ou em qualquer recorte
alguma coisa se repete
e o primeiro raiar da história
ou aquela tarde de adeus
são enchentes sem hora
quando preciso contar

sei que exagero
mas não há outro meio
quando se conta de tudo
o que cabe na ausência

existem, no íntimo
duas faces puras
doentes de paixão
suas bocas ávidas
nascentes em verdade
uma conta da ida
outra da saudade

a chegada do amor
é o triunfo
de qualquer fim

terça-feira, 18 de julho de 2017

Lei

plantei alguns segredos
e esperei em silêncio
uma flor que nasce invisível
e brilha ao luar

falo uma língua
noite adentro
que desponta a corrente
e flui em prata
amanhece perdida
e repousa em mistério

agora digo
meu mais longo adeus
e misturo tudo a essa palavra
como se não houvessem outras
mas peço a mim mesma
que não esqueça
do som da noite
e do céu
vindo abaixo

agora sei de cada parte
que imagina o retorno
mas que precisa lembrar
das duas beiras do rio
e da floresta que encontra
todas as coisas perdidas
não posso mais ver
o seu rosto do outro lado

 e nessa hora
em que tudo fala
é a única
em que eu nada quero ouvir
nesses tempos exatos
das minhas profecias
plantei algumas memórias
e já não posso
colher o que nasce
enquanto houver você

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Depois

Talvez o que eu esteja tentando dizer esse tempo todo é que falhei. Não é mistério algum esse enorme desastre. Falhei como julgava inaceitável, como qualquer versão minha jamais perdoaria. É possível entender o tamanho da falha quando ela é infinitamente maior do que qualquer outra possibilidade ruim que já se tenha enxergado.
Posso chamar de queda, de perda, de inconsciência, confusão ou qualquer outro rótulo e esse batismo continuaria sendo surreal. Nada remete exatamente ao tamanho dessa catástrofe, tão irreverente e sem precedentes. Foi uma porrada ignorante, foi o produto mais bruto que a vida já me ofereceu, um tombo desmedido que me fez desaprender a andar, um momento maldito que não quero lembrar e não posso nunca mais esquecer. Talvez eu só precisasse assumir o quanto errei, sem pedir perdão, falar sobre qual lição valiosa aprendi ou sobre como me tornei uma pessoa melhor.
Hoje só preciso me jogar e vislumbrar o que eu fiz, o quão longe eu fui e em que diabos eu estava pensando. Questionar se realmente sou algo além dessa cratera no chão da sala, se resolvo mergulhar nela ou se sumo daqui. Quero descobrir do que sou feita, quero esse amargo amargando o gosto de qualquer comida quando eu tiver fome, de qualquer desejo quando eu amar, até que eu não seja nada além desse caos e meus erros e eu sejamos um misto de tudo que é pior em nós.
Almejo um abraço do fim sem promessa alguma de um recomeço e rejeito com todas as minhas forças o que vier depois, porque quebrar por inteiro vai muito além de se desfazer e indefinidamente continuo aqui, porque essa falha é do tamanho da minha vida toda e eu preciso viver.

To be

I stand in the shore
and hit the waves
 before they crash
and everything I live for
gets carried away

and for some reason
I may never know
what lies deep within
the cold water I drown in
and if I did
Maybe at last
you would fade away

somehow I sing along
every melody
disturbing my way
I'm an ever distracted soul
and then I'm getting old

and I dont want to see the end
or search forever more
I want to sit
and rest
talk about ancient stars
hold something more
then this ever-changing dream

I wish for a mirror
to show why it is
this love will ever last
and see the day
when all else got in the way
since then I've been willing to travel
but I could never go away
and who's got the strength to stay

but if this will to fly
spread its wings
and hit the sky
then my dream has never lied

then I'm finally one
and everywhere
I am

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Invenção

não havia muita beleza
pelo caminho
mas quando cheguei
tudo parecia bonito
e esquecido na noite

como um corredor
de fotografias
flores secas em livros
e poeira ao sol
viagens ensinam
que tudo deve envelhecer

a idade não é segredo algum
mas a espera
essa sim é uma arte
 atravessa qualquer rua
destrói cada alma jovem
e qualquer coração
que vá depressa demais

e nesse cruzar
de almas e vazios
a espera mancha o sorriso
e estende um pano branco
que sempre muda de cor

eu sei
sei que explico muito
e sempre narro
o mesmo falar de adeus
queria um aviso
com todas as letras
e acabei estendendo
meus próprios soluços

peço perdão
pela batalha vencida
pela minha crença teimosa
e minha assinatura suspeita
mas preciso saber as horas
e a minha história
carece de ponteiros
e de começos

Pelos ares

há momentos
em que a face
volta-se para o chão
e as memórias sabem-se
perdidas
ambas precisam terminar

a face que olha
que busca
a memória que anseia
devem descansar

por vezes
a paisagem demora
o piscar dos olhos remete
outros tempos
o ar que adentra o corpo
parece simples
e não percebe quão distante
é o tempo que passa

talvez nenhum outro corpo perceba
o tempo passando
e roubando as melhores cenas
herdeiro do que não posso carregar

talvez outros pares de olhos
não vejam o peso sob os ombros
e esses meses e horas
a esmagar o que resta

até que ninguém mais
espere que nada mude
o corpo não rasteje
os olhos levantem
e nada respire

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Benção

Quem há de dizer
sobre o Deus mais poderoso
e erguer um altar
ou florear as preces
quando o tudo o que faz falta
realmente faltar

Como será dividida
a culpa e a memória
quando essa força
levar embora
o menor resquício
de qualquer resposta
ou carregar os desejos
em seus braços ocos?

Quem é que planta
as sementes da ideia
que nunca floresce
ou cuida para que os mesmos olhos
que juram
outro dia se rasguem
e durante anos
sejam cegos?

Os livros e bandejas
os rostos dos filhos
quem é que roga
para o Deus que assiste
a todas as coisas
morrerem de amor?

Se essa força da natureza for lâmina
faz sentido o que corre pelo chão
e entre as montanhas
e se a sua disciplina
desponta como a agonia
de uma manhã que não nasce
por entre as montanhas
da disciplina apática
é óbvio que o que é forte
nunca encontra morada

E se esse Deus for louco
e sem olhos
se estiver rindo em seu trono
onde repousam milhares de adeus
e se tudo o que ele fizer
anunciar por onde se parte a alma
e como o destino é um só?

Se essa mesma figura divina
for sádica
e nada sentir
por onde andaremos
quando tudo mais desaparecer
ou sentirmos que a face envelhece
e a alma se dobra
sem o mínimo sinal de dor
e se nos esquecermos pra onde ir
ou atrasarmos as horas
e habitarmos o vazio?

Pra onde olha
o que ceifa esse Deus
que nos tira tudo
e repõe cada dia
em tons de novo amargor
enquanto morremos de fome
envenenados pela certeza
de que caminhamos?

 E se por um instante
desabar a certeza
e o buraco do inferno
habitar a sala
e soubermos
como a noite que segue o dia
que ninguém virá?

Acaso

se algum dia
seus olhos caírem
sob este poema
saiba que ele nada diz
sobre mim
ou sobre o que quero dizer

se por acaso
o meu juízo falhar
essas notas voarem
 nem o vento carregaria
qualquer parte minha
esses poemas são loucos
e fúteis
e mentem

talvez eu não tenha amado
ou vivido
o que a alma diz
e tudo tenha sido
a mais perfeita ironia
em forma de adeus

se um dia essas palavras
estiverem em suas mãos
use-as como luvas
ou como lenha
ou qualquer coisa que queime
na mais perfeita inexatidão

por todos os motivos
e meus estúpidos perdões
eu nunca disse
exatamente o que quis dizer
ou ocupei o mesmo lugar

portanto
esse poema corre
de mim e de ti
e nada oferece
senão um pedaço de teimosia
e um curto abraço
que não sabe chorar

Comédia

a fé costuma esvair-se
pelas mais incômodas frestras
quando existe a verdade
e o que habita os sonhos

andar pelas ruas
não é a mesma coisa
e o fim da tarde
é somente o fim da tarde

 o café repousa sob a mesa
junto a meus dedos
e à tinta
com que imagino
a cor da última vez
e se nunca mais
essa história tocar os lábios
é porque todas as coisas
habitarão seu lugar

 números e músicas repetidas
selos sem carimbo
coisas sem fim
e dentre todos esses
um começo que ri
e nada principia

remédios e cobertas
e tempestades
em canecas pequenas demais
a espuma no chá
sem mensagem alguma

e um eco entoa
de algum lugar
que um erro
nada mais é que um erro
e todas as coisas simples
dependem de errar

entenda bem
o inexato e a imensidão
das coisas incertas
como uma anti matéria
espalhando o caos
e desfazendo tudo o que ousar ser
ou entornar o viver
numa bagunça real

algumas histórias ousam demais
e se algum dia
essas mãos sob a mesa
se erguerem no ar
haverá novamente
um laço que se desfaz
desamarra os punhos
e a vida
repousa sob a mesa
incapaz

domingo, 9 de julho de 2017

Burnt

I might have been broken
Everywhere one can break
I may have been lost
At all places and causes

There is this flame
That keeps on burning
All the losses and pieces
I solemnly carry
Till I no longer fade

Many are the things
And faces
Brought from the ashes
So many wishes bursting
As I look above
Knowing there won't be time

There will not be time
For I have been gone
All the times I have been held
I have said goodbye
In worlds of spoken language
And milion more silent words
That still remain

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Senescência

Mais uma tarde
Ouvindo minhas canções de inverno
E lembrando dos outros dias
Iguais a este

Algum dia frio
Alguma coisa muda
Ou talvez
Eu seja todo inverno

Quem é que faz o caminho
E dita o desencontro
Qual é o final do teto de estrelas
Em que descansa o seu olhar

A essência desses dias
A lenha dessa estação
São todas coisas belas
Que ficaram
E nem sempre serão adeus

Mas por enquanto
São coisas perguntadas
Depois, esquecidas, dormem

E as horas azuis da estação
Escurecem devagar

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sopro

Eu tinha certezas antigas
E memórias perfeitas
Que não diziam nada
E nem davam adeus

Hoje não vejo os olhos
Buscando o que perderam
Antes de me encontrar
Não sou o som
Tampouco a imagem
A coragem faltando
Ou qualquer espécie
De salvação

Finalmente, faltam palavras
Resta o meu corpo jogado
Em um canto novo
Onde a história
Nunca foi sobre esperar

A herança da estação passada
Prevalece
Ergui o mais sutil segredo
Da parte do seu ego
Coroei minha fronte
Como rainha do fim
Sobrevivo crua
E permaneço exata

Se a marca de ontem
For demais
E você não quiser ver
Quão pequeno o restante
Não será surpresa
Se tivermos um último final
Do discurso insosso
Entoado aqui

Eu costumava declarar
Tudo pela metade
Hoje sou inteira
Do que me arranca o juízo

Se você não falou mais alto
Ou nada quis dizer
Hoje o segredo é outro
E o medo é estúpido
Como o vento sem força
Soprando você até aqui

Amnésia

Pra onde vai
Tudo o que se perde
No vão da noite
No breu da dúvida

A fumaça sob a luz
Escreve no ar
O perdão e a memória
Exalam nostálgicos
Desprendem a lembrança
Exausta, adormecida
Do canto da mente

Como um esboço sem fim
É a prática do esquecer
O começo é o medo
De perder o que dói
E não sentir de novo
Qualquer resto de céu

Até que o cansaço aumente
E nada mais se escreva
E as coisas perdidas
Descansem
Desmemoriadas

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Posse

sento à mesa
e estou farta
torno a casa
viva
e estou morta

sóbria
sinto outras mãos
que acariciam o ego
e mexem as bocas
sem som algum

ébria
vejo outros rostos
colados ao meu
e outras luzes acesas
outros lençóis
e emaranhados de adeus

prazeres custam
um tanto de mim
que não posso pagar
tão caras as paixões
sem nome ou face
pilhando o que é único
e nunca se dá

ouço o querer
querem os meus ouvidos, olhos
o amparo em meu cabelo
e o corpo entregue
não me satisfaz

querem os meus passos
e o mapa que sigo a desenhar
o ouro guardado
a ilha que habito
tudo o que me faz
é a única moeda
que não posso trocar

sou só
e insana
e tão sórdida
tudo que me faz rica
é invisível
é o que todas as noites
e todos os homens
querem roubar

mas os ladrões desconhecem
os mistérios da minha dor
a distância viva em mim
a frieza da memória
e o gosto amargo do adeus

possuem o corpo
as palavras
minha vontade e meu êxtase
acordam ao meu lado
e esperam que eu durma
e vasculham o quarto
marcam-me a pele
com as letras do nome
mas estou farta
e sempre só
a minha única posse
é a certeza
em começo e fim

Veloz

Já não importa muito
dentro da morada
em que as coisas se tornam escuras
e antigas

Não importam os abraços
os pedidos
as promessas
e as amarras
são sons abafados
são mentiras breves
que continuam caindo

Não vejo nada
além da pressa
e das imagens borradas
quando corro
já não preciso parar

 A verdade é uma
e eu nunca pude domar
todos os meus fantasmas
tampouco ensurdecer os sons
e os chamados de outra voz
eu nunca pude voltar

Tanto a contar
sobre as visões
e as tristezas que vieram
em ondas fortes
e me tragaram como revolta
e me fizeram naufragar
mas a escuridão é um mundo
feito de força
e os meus gritos brutos
são como pedido

Peço por sombra
e por fôlego
e que o mar seja feito
depois de atravessado
que eu nade
alcance outras terras
morra na praia
ou enlouqueça na ausência
e nunca me encontre
no mesmo lugar

Que eu veja outras horas
chegada a hora de ir
e reveja meus velhos amigos
e enfrente velhos medos
e marejados, os olhos
que continuem correndo
devorando o caminho
movendo as montanhas
e sendo maior
que o próprio tamanho