“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Benção

Quem há de dizer
sobre o Deus mais poderoso
e erguer um altar
ou florear as preces
quando o tudo o que faz falta
realmente faltar

Como será dividida
a culpa e a memória
quando essa força
levar embora
o menor resquício
de qualquer resposta
ou carregar os desejos
em seus braços ocos?

Quem é que planta
as sementes da ideia
que nunca floresce
ou cuida para que os mesmos olhos
que juram
outro dia se rasguem
e durante anos
sejam cegos?

Os livros e bandejas
os rostos dos filhos
quem é que roga
para o Deus que assiste
a todas as coisas
morrerem de amor?

Se essa força da natureza for lâmina
faz sentido o que corre pelo chão
e entre as montanhas
e se a sua disciplina
desponta como a agonia
de uma manhã que não nasce
por entre as montanhas
da disciplina apática
é óbvio que o que é forte
nunca encontra morada

E se esse Deus for louco
e sem olhos
se estiver rindo em seu trono
onde repousam milhares de adeus
e se tudo o que ele fizer
anunciar por onde se parte a alma
e como o destino é um só?

Se essa mesma figura divina
for sádica
e nada sentir
por onde andaremos
quando tudo mais desaparecer
ou sentirmos que a face envelhece
e a alma se dobra
sem o mínimo sinal de dor
e se nos esquecermos pra onde ir
ou atrasarmos as horas
e habitarmos o vazio?

Pra onde olha
o que ceifa esse Deus
que nos tira tudo
e repõe cada dia
em tons de novo amargor
enquanto morremos de fome
envenenados pela certeza
de que caminhamos?

 E se por um instante
desabar a certeza
e o buraco do inferno
habitar a sala
e soubermos
como a noite que segue o dia
que ninguém virá?

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