“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

portão

Me dá a mão, Vem. Eu quero falar, mas preciso te mostrar. Não é um pedido, não é uma tentativa. É uma viagem. Embarca comigo. Relembra comigo, lembra de mim.
Daqui onde eu vejo é muito lindo, encara comigo o mesmo horizonte.
Eu sei daquela saga, daquele tom, da minha insanidade. Eu sei cada canto nosso. Das rachaduras aonde era aquela porta, da poeira no teto. Daquele quarto que precisa da gente pra ser quarto. Daquela casa que envelhece se não é um lar.
Escuta, eu sei do teu lugar, eu podia contar a história de cada traço seu. Não se vire. Eu vejo as suas asas, o seu vôo na beira da praia. As vezes você precisa ir.
Mas o presente dado é um laço que não se desfaz. Não falo de motivo, culpa, ou de razão. Falo do que se amarra todo dia. Do presente que não se guarda na estante. Falo do presente que não se deixa passar, do que a todo instante se decide abraçar.
Para aqui comigo, um dia não existiu mais nada além de nós dois. Eu te espero. Você dizia que quando eu não pudesse caminhar, você caminharia me levando. Eu sei que é muito, eu sei do resto.
Mas eu ainda estou aqui.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

mas eu volto

[espere aqui
passa tudo muito rápido]

talvez seja impossível falar de si
sem esperar que algo mude

nada se estende
além da idéia
de que não há volta

prende-se então
às pequenas viagens
às paisagens solitárias
de ser quem se é

alcançar o ponto mais alto
e perceber-se perdido
na imensidão do que se vê

o desenho das trilhas tão longe
lembra o quanto ficou
o quanto era pesado carregar
e tardava a jornada

o quanto se esqueceu
o quanto se voltaria pra buscar

esvai (vai-se)

nasci de muitas horas
de tempos distantes
nasci nos salões
nas danças lentas
na batida surda

quando nasci
muito de mim se fez
e se eu ficasse
o silêncio seria maior

[é preciso ir
como quem escreve um bilhete
e não espera o sol sair]

nasci sabendo
a plenos pulmões
a barganha
o relento
de quem talvez festeje
quem talvez erre
e nunca acerte a emenda

[é preciso atentar-se ao oposto
perder-se em cada rosto
repetir]

quando cheguei era escuro
não estavam lá os dias
fadados a morrer
as partes de mim que expiram
era a história mal contada
de quem nunca foi inteiro

domingo, 22 de setembro de 2013

Faça uma lista, acenda uma vela, medite - eles dizem. São tantas as vozes que não nos conhecem, são tantos os rostos ditando a receita. Não se esqueça, tente de novo, não pense nisso. É como se vivessem comigo. Como se padecêssemos igualmente, deitássemos juntos nas noites em claro. Como se enxergassem as minhas algemas.
Caminha-se só - e seguir assim é provar cada dia mais que não provou-se o contrário. Ninguém nunca esteve sempre lá. Ninguém foi incondicional.