“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Finais

Somos cegos para a hora do adeus
E desesperados por uma saída

Todos os castelos são feitos
Das mesmas pedras
De torres que desmoronam
Todos os dias

Continuar é uma jornada
Refazer os próprios passos
É a revolução
E a prece no escuro
De uma luz que se apaga todos os dias

Histórias breves são caminhos
E escrevem recados
Mas a parte maior vence
E sempre encontra chegada
Em tantos outros lares

Vagamos sempre em busca de fim
Desfechos e espaços e pontos
Sem saber da parte acesa e viva
Queimando como verdade:

Vivemos
Intermináveis.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Peça

até se seu soubesse como chamar
esse algo que me consome
seria um problema dizer
sobre o meu apego
a tudo que resta

se eu visse outro olhar no retrato
ou seguisse outras estradas
se eu corresse menos perigo
talvez estivesse inteira

eu sempre sei
quanta saudade vou sentir
quando sem traços ou volta
enxergo algo adiante
que já não existe aqui
sempre soube
que a minha morte
seria o momento
em que eu visse sempre
algo novo em você

perdi os limites
e não disse toda a verdade
e o que eu virei
depois da última vez
é exatamente tudo
que já aprendi

eu disse
e de novo estive lá
e não sei como chamar
a certeza no seu nome
mas o lugar não é o mesmo
e o encanto não cessa
de todas as formas
essa parte que eu não tinha
nunca seria tudo
ainda assim
eu nunca soube
quem é você


Sobre perceber

Existe um lugar
Para o que é coberto de razão
Descoberto em segredo
Prece em segundos
Nas noites sem fim

Quando falo de luz
Sei do tanto que brilha
E na escuridão, algo que arde
Como chama
Como nome
E outra voz

Existe além das linhas
E da memória insone
Alguma fonte pura
Um detalhe ou esmero
Que segue por si
E às vezes por mim
Como que pra lembrar
Que acredita em algo bom

Dentro de algum canto
Algo guardado e contido
Quando tudo mais
Revela vez ou outra
O fim de algo que importa
Eu pareço ter muitos finais
E poucas, tão poucas memórias
Fazem morada e discurso
Falam alto e mudam o tom

Enquanto sigo
E ando
Eu desespero
E sei que o desespero
Não é triste
É uma espera pelo que se sabe
Pelo que eu sinto
E não posso ver

Não há nada de errado
Com esse adeus
Nesse tempo em que tudo segue
A andança é o rumo certo
Quando o que surge é passado
Resta assumir o que fica
Confesso ser essa a hora
Em que deixo de esperar

Vez ou nunca as histórias pairam
E é possível ver na poeira
O desenho do fim
Talvez não haja razão
Pra ficar

Dos detalhes

Tanto ainda vai se perder
Nessas ausências e temporais
Nessa visão de estar sempre
Aonde se quer

Tão longe é o destino
Quando andar a esmo
É carregar essa falta
E as promessas
Que ninguém cumpriu

Tanta espera
O amanhecer é cheio
Dos espaços em olhos perdidos
Em uma busca além do olhar
Que por vezes é bruta e finda
Tarde, tão tarde
Insiste em recomeço

Ainda muito é óbvio
Durante a noite
Enquanto durar
Essa saudade
Essa parte dormente
Lembra sempre de mim
Do pedido de sempre
Mesmo sem querer
No silêncio que continua

Ecoam tantas palavras
Não ditas e talhadas
Na parte de fora
De tudo que não se viveu
Iniciais de um nome
Lâminas nas mãos
De quem nunca disse adeus

terça-feira, 23 de maio de 2017

Souvenir

Você pode rezar
e andar sob as chamas
e clamar nomes
que diminuam o seu passado,
o seu tamanho,
e essa sensação esmagadora.

Pode dizer,
milhares de adeus
e culpar muitos dias
em que uma parte sua
pareceu perder
algo seu.

Mas você não saberia
consertar essa cena
e juntar os cacos
sem se cortar aos pedaços.

Você não tem culpa,
nem voz,
ou razão.

O seu orgulho e seu zelo,
 e essa cautela sem fim
são chão
e os passos do ego
não levam a lugar algum.

Tanta andança
sem destino algum,
um rosto que não se mostra
e uma boca que não fala
um corpo cheio
de términos pela metade
e segredos guardados.

Quantas histórias tristes
pra poder enfim,
parecer feliz.
Quanto receio herdado
e conselhos óbvios.

Você pode tentar
fazer as mesmas coisas
e ceder a mesma quantia
de nada além,
 levantar e deitar-se
e viver até cansar.

São tantas as faces da morte
E do mesmo erro
Num duelo perdido e anunciado
Não há o que ou quem
Força ou treva ou tamanho
Não há o que exista ou ameace respirar
Caminhe ou nasça nesse chão
Não há o que sobreviva
Ao soar dos sinos e tiques das horas
A fio, a esmo, ainda ou agora
O tempo há de levar

Querer

Sobre o tempo que perdi
enquanto fazia sentido
de uma memória que se faria comum,
uma noite vivida,
um amor ordinário.

O meu maior desejo é sentir medo,
mas em algum lugar perdido
deram-me coragem demais.

As camas em que deito,
os lugares que visito,
são sombras dessa minha eterna
ausência de rumo
e vontade de pavor.

A necessidade do vazio
e de tudo mais que não me perturba
reflete as mesmas
paixões fracas
e destinos errantes.

A minha cicatriz é a força
em fugir dessa mesma vida.

Ao inferno com o acaso
e o juízo,
mereço os dados,
e esse caos que cisma
em dar as cartas.
Perco e blefo,
morro de orgulho
e de outros pecados.

Ao inferno com a coragem
que você não tem,
com essa necessidade estúpida,
essa certeza insossa,
uma vida parada.

 Se eu for o incêndio
desse passado que não morre,
sou a prova viva
do efeito da fúria,
da arma que fere e pulsa
incessante,
deseja sempre mais.

sábado, 20 de maio de 2017

Um dia

Queria sentar ao seu lado
Não em um dia como o primeiro
Quente e perdido em verão
Mas em um dia
Em que se contam
Segredos antigos

Em um banco
Em algum lugar
Nesse cenário sem vida
Eu diria a verdade e faria frio
Quando os erros
Se descobrissem
Tempo perdido
E a falta
Sentida de uma vez
 Pra nunca mais

E todo o silêncio
Viraria uma​ página
Num conto maior
Agora,
Uma única palavra
Habita essa parte que ficou
E continua pedindo
 Desculpa

Mas eu queria sentar ao seu lado
Num banco perdido no tempo
E ter espaço pra dizer
Como era sentir medo
Até percebermos
Que nada mudou
Ou até sentirmos
A hora passar

Mentira ou verdade
Eu sinto muito
Por acreditar
Que jaz perdido e eterno
O que seria dito
Se eu fosse sentar ao seu lado
E o que seria feito
Se eu ficasse

Divisa

A minha ruína é essa mania de escrever. Escrever o que sinto, vejo, penso, essa coisa de querer no papel uma foto minha, capturada em palavras nada sensatas. Talvez assim pareça real, talvez assim eu não tenha escolha senão encarar a insensatez. Quando percebo a falha em minha escrita, enxergo o quanto de mim já foi enquanto eu acenava em adeus.
Ando pela mesma antiga estrada ignorando a sinalização. "Pare","perigo". Preciso de alguma coisa que continue, da velocidade, do escuro, de algo que não pare sem que eu faça parar, porque o meio do caminho é cruel e ecoa a fraqueza que me trouxe até aqui.
O meu fim é precisar falar quando queria algo que simplesmente fosse, sem palavra ou desculpa, algo que só acontecesse, existisse, estivesse ali. Mas enquanto as minhas palavras forem tão passionais e descuidadas, nada se define. Retratar essa imensidão exigiria um limite e escrever é minha única fronteira. É aonde sou só, inexata, cansativa, interminável. É como se eu nunca esgotasse, como se repetir a minha teimosia fosse apenas gentileza​. Escrevo e escrevo e escrevo, até que eu encontre forças, até que meus pecados pareçam amor.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Chances

se você me disse a verdade
então
não há grito suficiente
se o que existe em você
é o que eu vi
 só existe esse mar
em que nos deixamos
em despedida
afundar

mentiria mil vezes
diria estar bem
mas existe sempre
no escuro
as linhas da carta
as marcas no corpo
e algo maior

e uma pergunta
flutua pela noite
e se eu acredito em você
então
não há tempo suficiente
só existimos os dois
nada mais é próximo
além da memória
desejo
e do começo

e uma chance
batizada em suor
reconhecida em adeus
se você tem vivido
a mesma história
então
sonhamos
o mesmo
e velho
sonho

terça-feira, 16 de maio de 2017

Aprendiz

as malas feitas na soleira da porta
ninguém havia vindo pra ficar

as lágrimas no quarto
e ainda, as risadas na sala
todas as ironias do destino
toda a raiva atirada
ao acaso

algumas lições
 se fazem aprender
outras tecem um plano
e o cuidado de uma vida
é bordado no escuro
até o raiar do dia

nem sempre tive medo
mas chegada a hora
todo olhar regride
e eu voltaria outra
e por outras
tantas vezes

os sons da casa
eram altos e baixos
e sempre graves
entre todas as dores
o perdão falava baixo

as horas do adeus
eram mentoras das mãos
e do rosto
e a minha língua dizia
todas as coisas certas

quando me diziam
de tudo um resumo
e me entregavam tenros
as cartas da vez
tudo era o que poderia ser

 incontáveis histórias
incansáveis ditados
ouvidos sem prazer
ou desgosto
ouvidos em vão

quando me deram motivos
irrompi em festa
eu tive razão
e ninguém provaria o contrário
estive vazia e oca
e certa
como o que eu via
em todo rosto
em qualquer lugar
 
até que me deram flores
e eu dizia que flores não eram
algo a se dizer
eram cor e cheiro
e não havia tempo
mas eu não via que destruiria
qualquer cor ou palavra
em qualquer boca
senão a sua

já não sabia o que fazer
com cores e cheiros
e coisas dadas
ou como acreditar
em algo que não leva
ou não destrói nada

 [eu estive errada]

algumas lições pairam no ar
e esperam o momento
em que tudo desaba
sem peso ou alento
passada a hora
coincide o olhar

quando pedi desculpas
 o fiz sabendo
que já estive do outro lado
quando tudo era sutil
e inerte

tudo era encontro
e nada se encontra
algumas lições
são tarde demais.

sábado, 13 de maio de 2017

Um dom

o meu sonho
é uma estrada livre
de ar puro
e um vento soprando só

um caminho qualquer
será bonito
será em paz
se estiver escrito
todo em mim

a descoberta é maior
que a história da morte
a fuga de ontem
as sensações dormentes

entre repetir e acordar
não há sabedoria
apenas força e medo
apenas o que cala
e a parte que segue

meu sonho é um momento
em que todo "eu"
seja um tanto invisível
e permita algo além
novo, infinito
nessa eterna ida
que depende dos próprios passos
e sobrevive de si

a alma anseia
pela ausência pura 
no dom da solidão
até que nada mais exista
 somente um sonho inteiro
 uma vida que nunca pare

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Rendição

o que nasceu de nós
chuva e terra
que não semeia
voz e prece
tudo o que cai?

joelhos ao chão
nada permanece
vivo quebrada e serena
como o que vive
sem vida alguma

um suspiro que liberta
a rendição
isso é o que resta
quando os olhos vêem
a outra face?

um pedaço de nada
um beijo de adeus
palavras e muitos
muitos anos
sem força
silêncios doentes
de culpa e desejo

o que fica
quando as cenas
já vistas
e o sangue que escorre
  são mais do mesmo?
a mesma fonte que não corre
apenas repete o que quer dizer

até quando a razão anda distante
de quem não sabe de si?
uma bandeira estendida
anuncia o triunfo
de quem nunca esteve aqui
espadas e bainhas
e sussurros malfeitos

é inteiro o fim
quando nada se divide
nem a noite ou a luz
o som que ecoa por nada
é o que fica
quando nada mais está
sem luta ou trégua,
desmemoriada,
a mente íngreme
 descansa

 a paz
nunca é algo feito
mas o encontro em caos e em vão
e não essa ideia que segue em partida
nunca esse toque de recolher
sem honra e demora

é som que soa em desgraça
alguma coisa finda
descoberta e horrenda
a coragem exata e rota
que escancara a alma
e destrói a razão

não estende bandeira alva
ou bandeira alguma
é o que não se vê
ou ficou pra depois

é em hipótese ou lei
fatal, imensa
e segue ilesa

a paz é o solo coberto
de história e poeira
o fogo em espécie
a herança de força
bruta e fugaz

é quem veio e tomou a pulso
qualquer coisa que seja
pelo simples ato
em fazer de si um tanto mais
quando há algo a dar

não é o grito
ou a volta pra casa
o pedido ou o perdão
tampouco o atalho dos fracos
ou o banquete dos covardes

é um cemitério de adeus
que ecoa num banco de igreja
uma vela que apaga
os anos em prece
um véu negro estendido eterno
uma praga na carne
o suspiro no escuro

é o contrário de toda essa febre
do abandono da terra infértil
em que nada cresceu

 fruto do que é contrário
a paz jamais se rende

sábado, 6 de maio de 2017

Hábito

Todos querem saber o que é amor. Amar alguém é sentir falta de estar em paz por tempo indeterminado? É uma agonia em passar a sentir qual a parte faltando em si? Devolvo a pergunta. É preciso saber de amor? Se eu te disser que feche os olhos e pense em alguém, você saberá o que é amar. Saberá exatamente aonde foi e aonde dói. O amor é uma jornada, nos leva pela mão e nem sempre nos guia. O amor é desenfreado. É embarcar em algo que não parece com nada, é fechar os olhos com aquele rosto pela primeira vez e saber que fechar os olhos nunca mais vai ser a mesma coisa. É entender que não importa o quão distante você já tenha ido antes, é preciso embarcar, é preciso ser próximo de algo, de qualquer maneira torpe e problemática. O amor é cheio de manias, de falhas. É feio e tímido, é bravo e inconveniente, é insuportável e não fala absolutamente nada na hora em que mais se precisa. Sabe por que? Porque tanto tempo é perdido tentando definir um querer, um padrão, um o-que-é-isso, que o normal é esquecido. Querer alguém quando você abre a porta de casa, lembrar de alguém enquanto você faz café. Aquela saudade excruciante que cai na cama como algo muito pesado, aquele sonho lembrado só depois do almoço...O amor está aonde encontra morada. Nos lugares simples como os atos que repetimos todos os dias, enquanto distraídos. Se a forma de amar é a forma como se vive, amamos repetidamente e distraidamente todos os dias. Se for como ler o jornal, ir ao trabalho e voltar pra casa, o amor nos pertence desesperadamente. Em quem você pensa enquanto lê um livro? Quem está com você enquanto o elevador demora a chegar? Quem é que faz silêncio em qualquer lugar?
Feche os olhos. Pense em alguém. O amor é simples, não é pergunta, não é resposta, nunca é óbvio. Aonde você está? O amor nunca é distante, é o que está sempre lá e talvez sempre tenha estado. Abra os olhos.

Nada

me lembro da música
que tocava no quarto
e da meia luz
em que eu vi
a vida passar
nos seus braços

estive lá
quando você era silêncio
e pedia mais
e tinha medo

quando sentamos a mesa
éramos jovens
e inquietos
eternamente
insatisfeitos

quando deixamos
de ver os nossos olhos
algumas coisas
ficaram
como os seus ombros
e o som
de não respirar

mas tudo
tudo
lembra
estar em casa

 quando tudo foi dito
sobram sonhos
e milhares
de adeus
e pedaços de coragem
e outros dias
e outras vezes

mas nada
nada
parece ser
o quarto
e a noite
 e o fim.

E poucos anos

outros já disseram
do meu jeito de ser
solto e fugaz
a minha insensatez

já esperei
por limites e horas
mas vivi a tona
eu sempre soube nadar

recusei as juras
nunca me enquadrei
ou andei por onde
era claro
ouvi da minha surdez
e dos males
em ser sem mapa
e sem lar

hoje
faço as malas
e as pazes
com o fim

sei do que é exato
e além
noites e noites
vivi e brindei
os goles errados

agora
parto e sem demora
conto o tempo
em que aprendo
a correr
e a contar
o que passou

não falo o idioma
em que se diz adeus
mas traduzo
sem parar
essa saudade

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O monstro

Existe uma lei
em todos os universos
do amor e do ódio

Com a boca
devora a tudo
e consome todos
os corações inertes

Com garras
rechaça o tempo
e rasga  o peito
que não pode esperar

Protege e respira
e aguarda

Existe uma hora
a soar em todos os sinos
e bater nos ponteiros
Uma hora que sempre
sempre chega primeiro

Com seus ponteiros
agulhas e farpas
ferem e ficam
Pois não existem olhos
que enxerguem
os meros
os mínimos
maravilhosos detalhes

Sem som,
seus minutos, segundos
Caminham e correm
e somem
Sem destino
Levam todos
e lavam os olhos

Repete e anseia
e aguarda
 
Existe uma lei
na hora em que tudo diz
"Agora"
Um eco no ar
Que abre os cílios
E os braços

Com sua insensatez
jamais se curva
E arma nenhuma abate
o seu riso
Cruel
e de vontades
superiores

Festeja
e seus banquetes
nunca matam a fome
Cansada e alerta
Corre a destruir
o que estiver no caminho
e fora do lugar

Exibe, afiada
os dentes
e insana
aos passos pesados
fareja
pela cidade

Há uma lei
em tudo que é
dentro e fora
de nós
Que retorna cansada
e suja
e se abriga
entocada e escura

Seremos
e deixaremos de ser
quando algo maior
e pior
fizer de nós
o que vem depois

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Rogado

quem é você
nessa história pouco escrita
nessa música breve
nessa memória crua

o que é que escreve
o que vê
quando cala sereno
diante do que falta

qual foi o momento
em que todas as falas
desistiram
e eu morri

o que moveria
os seus lábios
o que atesta
essa ausência

a visão do adeus
e das minhas costas
ainda é vista
alguma hora

quem você é
e quem desistiu
de mim
qual parte sua lutou
ou se eu nunca guerreei

se me salvou
ou ao menos esteve aqui
se fecha os olhos
e a sua paz
é tão grande
como o castigo
dos crimes que cometi

se é cansaço
ou lucidez
a demora com que se fez
tudo antes do adeus

quem sou eu
o que ficou
o meu espaço
se ainda habito
brechas
ou imensidão


qual é o sustento
quanto do silêncio
é prova de amor
ou falta de coragem

quem abriu esse espaço
a punho
ou a ferro
e cortou um caminho
em mim

do que você é capaz

Planeta

eu esperei por você
e de nada serve
a minha palavra
cheia de tudo
como o vento
que te carrega
leve
tão longe

muito não entendi
mas você foi a maior
morte
e é morrer
não saber
se você é fraco
ou forte
ou como leu
as minhas palavras
se ecoam
como o meu pesar
dentro do mundo
que dividimos

não posso pagar o preço
desse silêncio
não posso ficar aqui
e ainda estou
consumida
e desacreditada
irremediavelmente
aqui

eu queria ser bruta
queria ser forte
já não posso ser tola
tampouco rica
das artimanhas da fé
eu tropeço
e não chego ao chão
se chão houvesse
eu estaria aterrada
nessas coisas suas
que cobrem a vida
e a luz

eu sou uma sombra

o que adianta querer
já não possuo nada
e durmo
e acordo
e creio
desgraço-me
mais e mais
a olhar o céu

eu queria voltar
pelo caminho que percorri
antes de tudo ser perfeito
já que continuas sendo
o melhor
no que é bom
silencias tudo

o que é o vento
perto do que levas?
o que é a madrugada
quando tudo para
frente ao seu rosto?

não há volta
não há céu
ou vento
ou noite

existe apenas o que eu vejo
e o que não é

paira no ar
perfeito e exato
rarefeito
eu respiro
e não existo
no seu universo