“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 16 de maio de 2017

Aprendiz

as malas feitas na soleira da porta
ninguém havia vindo pra ficar

as lágrimas no quarto
e ainda, as risadas na sala
todas as ironias do destino
toda a raiva atirada
ao acaso

algumas lições
 se fazem aprender
outras tecem um plano
e o cuidado de uma vida
é bordado no escuro
até o raiar do dia

nem sempre tive medo
mas chegada a hora
todo olhar regride
e eu voltaria outra
e por outras
tantas vezes

os sons da casa
eram altos e baixos
e sempre graves
entre todas as dores
o perdão falava baixo

as horas do adeus
eram mentoras das mãos
e do rosto
e a minha língua dizia
todas as coisas certas

quando me diziam
de tudo um resumo
e me entregavam tenros
as cartas da vez
tudo era o que poderia ser

 incontáveis histórias
incansáveis ditados
ouvidos sem prazer
ou desgosto
ouvidos em vão

quando me deram motivos
irrompi em festa
eu tive razão
e ninguém provaria o contrário
estive vazia e oca
e certa
como o que eu via
em todo rosto
em qualquer lugar
 
até que me deram flores
e eu dizia que flores não eram
algo a se dizer
eram cor e cheiro
e não havia tempo
mas eu não via que destruiria
qualquer cor ou palavra
em qualquer boca
senão a sua

já não sabia o que fazer
com cores e cheiros
e coisas dadas
ou como acreditar
em algo que não leva
ou não destrói nada

 [eu estive errada]

algumas lições pairam no ar
e esperam o momento
em que tudo desaba
sem peso ou alento
passada a hora
coincide o olhar

quando pedi desculpas
 o fiz sabendo
que já estive do outro lado
quando tudo era sutil
e inerte

tudo era encontro
e nada se encontra
algumas lições
são tarde demais.

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