“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

domingo, 11 de dezembro de 2016

a deriva

Se a cor dos seus olhos
como ondas quebrando
no mar que nos tornamos

os braços sobre mim
nascente das noites
que revivo incessante
a maré consome
qualquer outra memória

ardem os olhos
a vista de um mundo
em que habitam somente 
dois corpos em febre

meu peito se fez luz
seguem os passos
somente uma direção
manhã, tarde, noite
mesmo rumo
destino
desmonto

é mútua a sensação
não basta o infinito
a sintonia fina
o ritmo agoniza
e sempre recomeça

 flutuo num oceano que se perde
a tentação do mergulho persiste
naufrago
e do náufrago sobrevivo
sem pretender voltar

submersa
nesse verso
sujeita a loucura
mergulho
em ti

sábado, 10 de dezembro de 2016

humano

não está mais aqui a minha marca
já não sigo seus passos apressados
estive ao seu lado
mas com que pernas seguia
se o destino estava
apenas de passagem

a esmo
quero estar aqui
não se ouve nada
nesse silêncio fúnebre
da minha marcha
nada impera sobre mim

por vezes há uma vaga
onde seu nome repousa
sensação de vazio
porque você é pressa
a eira
a beira
de mim

essa lentidão é liberdade
é sede
de estar exatamente aqui
em desafio
eu brindo a cada momento
em que não existe porque

porque você precisa tanto
dessa coroa
que embarca o ego
que embarga os meus olhos
o meu presente seria
uma coroa de espinhos
leve
e que tirasse de você
essa prisão
porque você não sangra

e é sangrando que se segue
é vermelha a cor da órbita
quando a certeza é pouca
e bastante
só é preciso continuar

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Cada memória

A vida não simplesmente continua. Eu não sei nomear o que é o restante que se vive depois de ir perdendo aos poucos tudo que nos faz quem realmente somos. Há quem diga que isso é o que define viver - eu não acredito nisso. Acredito que a vida esteve contida em cada sorriso olhando o resto de quem se ama, em cada vez que meu coração perdoou. Amedronta saber que estamos a deriva, não sabermos quanto de um amor vamos viver, desconhecermos o tempo que leva até a mudança arrebatar cada canto da vida.
 Como é que posso falar daquele momento eterno? Não acredito mais em adeus - o adeus é vivido todos os dias até a exaustão. 

arca

parte de mim
meus olhos procuram
exaustos
se esvaindo aos poucos

como saber
aonde começa o seu fim
caminhava a esmo
não deveria existir uma vida
em que eu não corra pra você
agora sento a contemplar as flores
da saudade que brota em jardim

a agonia em reviver
cada escolha
em que me vi
longe do que me fez
eu fui você
antes que pudesse saber
morava a eternidade
em um sorriso seu

 partes de mim
e já não há nada a fazer
minhas mãos se foram
junto do aceno
meus braços, embaixo da terra
aninham seu sono

no meio do jardim há um tesouro
a foto do meu coração
em uma arca invisível
tudo que é meu jaz ali

tudo que é meu em ti
queria dizer mais
mas tudo seu é sagrado
o elo puro
entre o passado e a dor

[você é resumo da minha vida
antes e depois
continuam sem mim
nunca mais existirei
além da falta de você]

 o seu nome será dito
em cada sonho meu
mas quando acordo
é mistério que se faz
jamais segui só

você vive
e todo lugar é seu
não existe mundo em que eu viva
está extinto o meu peito
cravado no seu
preciso estar
aonde não exista adeus

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Olho

[sempre houve o sonho
de você estar aqui comigo
saber do outro lado de mim]

existia um muro alto
e você ficou preso na estrada
uma nuvem se dissipava
e não haveria outra chance

tão longe eu via
a figura de um homem só
com quem eu sentaria pela eternidade
se apenas houvesse lugar

tudo era dor
que não se encontrava
tudo era tempo
escorrendo entre os dedos

eu sei o seu nome
e não consigo chamar
pra onde é que se volta
quando só o que resta é ir

sei que um dia estive aqui
antes do vento
que apagou o lugar
o nome
o rosto

os planos imploravam por nós
que sempre estivemos a um triz
de falar a mesma língua

eu queria olhar nos seus olhos
conhecer esse espelho
apontado sempre pra você
veria o seu centro
e miraria pro outro lado
em busca de alguém

[sempre houve a prece
de ver amor em você]

vive em mim
esse espaço
que não sangra e nem fecha
de uma vontade que sucumbiu

tudo é adeus
nessa busca insana que é tão sua
de quem teima em ser feliz

tantas vezes repeti
o perigo em andar só
é o desespero em provar
o que ninguém se lembra mais

o muro era alto
e era preciso atravessar
 não sei dizer de que precisei
enquanto você não esteve lá

enquanto o seu olhar varria de mim
meus próprios traços
rabisquei num papel
um desenho qualquer
se uma parte minha ficasse
eu poderia continuar

perdi tantas coisas
e você não foi uma delas
descobri que podia ficar
não existe medo
na cicatriz dentro de mim

não há mais nada
além dessa paz reinante
hoje me lembrei
havia algo lá fora
e você não pôde entrar

 não há mais dúvida
se existe um segredo
é que não há caminho
ninguém sabe chegar

aqui nesse canto de mim