“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ato

transforma
a idéia muda
muta o jeito
o dom

cortina
a peça atrasa
engana o tempo
a máscara

o rosto esconde
o tapa
levanta
frio
finge

domingo, 30 de maio de 2010

lembra

a saudade vem
ler qualquer palavra
ouvir qualquer nome

o poema vai
escrever qualquer verso
como desenho em nuvem
estrela que um dia brilhou

o sorriso volta
escutar a voz
a risada sem hora

memória se faz escrita
melodia que toca sem nota
amarra a razão e obriga a sentir

todo seu

eu peço mais
do que sorri ou chora
de cada parte sua

é o todo que devora
é a rima que apavora

eu quero mais
e faria-o tendo tudo
não me cansa olhar o sol
mesmo envolto em neblina
luz queima ainda sutil
calor transpassa a pele fina
o corpo envolve a alma
o amor dispensa calma

seis vezes coragem

"seguinte.....na vida a gente precisa de duas coisas: coragem, e coragem."
(Felipe Vieira)
Faço minhas as suas palavras.

Coragem pra descartar o que precisa ser descartado, coragem para encarar o risco das nossas ações e arcar com todas as consequências....
Coragem para pedir com fé o suficiente pra receber. Coragem para destoar, crescer, sentir, sofrer.
Nem toda luta é honrável e nenhuma fraqueza é ausência de força. Lutar contra nós mesmos, quando algo dentro de nós grita por liberdade é covardia.
Dançar conforme a música quando se pode compor um novo som, se acomodar com uma realidade que não agrada e silenciar o grito instintivo e iminente é covardia.
Acima de tudo, a raiz do medo é decepcionar a quem não podemos dar as costas por muito tempo: nós mesmos. Somos nós mesmos a batalha e a paz, a vitória e o fracasso - e a ambiguidade assusta.
Foi preciso coragem para escrever as linhas que faltavam, para aceitar o vazio que se sente, para agir quando não houve pedido e ir quando não houve convite.
Sempre será preciso coragem para viver distraidamente, viver de verdade - sem esperar pela próxima vez.

Usei a tal palavra seis vezes, e esse número não é nem de perto o necessário.

o silêncio paga a dívida em dúvida

a minha frágil inocência
acompanhar
o que julguei mudança
e virou passado

sua metade
seus olhos
minha atenção
o que eu julguei certo
e não pude ver

ficar do teu lado
é abandonar o meu
sair do teu lado
seria trair o meu

se saio ou traio
tal escolha nunca me pertenceu

sábado, 29 de maio de 2010

última vez

eu podia dizer adeus
mas a certeza nunca foi parte do todo
faço-te rascunho
não encontro definição

ainda imploro
e não entendo
é maldade

é a força que não tenho
o dia que não chega
sonho cansado

é vidro que corta
a raiva
e os fios arrancados
deserto sem sol
sem fim

covardia
é ter em mim
o que não me cabe e nem acabe

sexta-feira, 28 de maio de 2010

brecha

a fé estava de passagem
viu a felicidade cruzando a rua
não passou

num dia qualquer
olhos que nunca se viram
viraram do avesso
lugar desconheciam
leram-se infinitos
souberam-se

serão todos
os dias
os olhos
as vidas
felizes

quinta-feira, 27 de maio de 2010

"o bolso do destino"

É aquele aonde é achado dinheiro antigo, esquecido. Aquele em que esqueceu-se de olhar ou procurar e tempos depois nos traz algo que precisamos, merecemos e queremos - ou não.

afinando

a vida toca
tecla corda ou sopro
passa como música
desafino envolvente
ritmo crescente
timbre que muda o tom

a nota é surto
momento
que se foi
a vida é o som
do começo ao fim
canção retalhada
marcada
partida

a vida toca
cantamos sem saber a canção

domingo, 23 de maio de 2010

eu não seria quem não sou

de um jeito bem cruel
não sou quem deveria
magoa sutilmente
dar forma a quem seria

se eu fosse o bastante
não haveria vírgula a por
se eu fosse o que te bastasse
seria esculpida em vidro
pedra de incalculável valor

não sou a parte que te falta
e isso me tira uma parte que faz falta
se puder, por favor
não me faça nenhum favor

fiz cada verso rimar
ainda que eu faça poesia
não parece haver nesse mundo
amor que eu saiba te dar

a forma não sustenta loucura

descobri a graça em viver
os dias que me foram dados
nenhuma
não houve surpresa
preferi os dias inventados

escrevo linhas incertas
definição dos meus dias
têm meu afeto sincero
cultivado a sol ou chuva ou nada
único teto a abrigar minha incoerência
pilar a suportar alicerces tão fracos

essa vida é canção, reduz a pó o que teima em existir
é simples, nega resposta a quem pergunta sem sentir

domingo, 16 de maio de 2010

do ódio, a certeza

do primeiro caminho
o mais longo
do primeiro corte
o mais profundo
depois
da dor a adaga cravada
a falar cada vez mais baixo
a respirar cada vez mais junto

das palavras duras e ásperas
a mais pura verdade

das vidas que lutaram intensas
vozes que gritaram e falaram a alma
o mais sórdido olhar
o mais curto viver
o preço por lutar tanto a ponto de vencer

daqueles que ousaram
a coragem em enfrentar
o veneno das línguas maldosas que falam no escuro
o vazio dos olhos que vigiam o mundo
das almas ordinárias que assistem a vida de cima dos muros.

disguise truth

there was cold
and snow
and dark

trying to find home
when my own arms were not enough embrace
I have always been alone
there is no one to reach this soul
my long time sold soul

there was time
years and hours
and infinite ache
like ice burning
in long gone fire

it was never about you
it was bigger and deeper and harder
it still is about the empty me
facing abscence of all there'll ever be

sexta-feira, 14 de maio de 2010

o silêncio acorda

as palavras somem
os dias de outono
as folhas secas
somem também

o silêncio
decreta
reais somente as palavras já ditas
as por vir apenas não

são preces
e sonhos
outrora acordam

segunda-feira, 10 de maio de 2010

é cedo ou tarde demais

eu já te disse que você é poesia?
e faz a hora passar?

dissemos estar indo
pedi pra você voltar?

tive medo
me sobra a falta de você
ecoa o que não houve
quis dizer

contei suas palavras
faces
histórias
quis ser mais
fui ausência
não me disse sua
disse amor?

senão

poesia
faz a vida passar
volta
amor

"I'm miles from where you are
I lay down on the cold ground
I pray that something picks me up
and sets me down in your warm arms"
(snow patrol)

domingo, 9 de maio de 2010

futuro do pretérito

Costumava supor que seria fácil agradar às pessoas que amamos - mudei de idéia.
Quando realmente gostamos de alguém, passamos a ter medo. Medo de dizer demais, de não dizer, sofrer, e principalmente, de estar novamente só. Passamos a refletir sobre tudo que não deu certo, desacreditamos que exista quem mereça o melhor de nós.
Quando amamos, o que julgávamos simples se torna complicado. Sabemos o que dizer, mas por algum motivo, não o dizemos, e há um orgulho que nos impede de voltar atrás e recomeçar, ainda que pareça a coisa certa a se fazer. Passamos tanto tempo nos colocando no lugar do outro e pensando em causas e consequências......acabamos perdendo a razão por nos basearmos demais nela.
Talvez sejamos dignos de uma folga, e possamos viver um dia sem nos preocupar com o dia de amanhã. Seria fácil amar sem amanhã - não seríamos mais escravos do futuro do pretérito.
Usando o próprio, diríamos, faríamos, sentiríamos o que quer que fosse sem preocupações.
Precisamos de um dia - somente um - pra lembrar que nem tudo deve ter um propósito, um efeito, nem tudo deve levar a algum lugar ou fazer algum sentido. Nós não fazemos sentido nenhum, afinal. Quantos não se sentiriam aliviados? Quantos fariam o que sempre deixamos pra amanhã?
Teríamos coragem, liberdade. Deixaríamos de trair a nós mesmos com o silêncio, diríamos o que é importante, o que incomoda ou agrada, e acreditaríamos que as pessoas poderiam estar preparadas para ouvir o que temos a dizer. Não desejaríamos mais voltar no tempo, faríamos o tempo. Seríamos nós mesmos e viveríamos de acordo com o que temos hoje e insistentemente ignoramos: o presente - e somente isso.
Mas, novamente, falo em outro tempo.


"but if you never try you'll never know just what you're worth..."
(coldplay)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

teste

obstáculo
tantas vezes
sentir a imensidão
e não conseguir dizer
nem mover

respirar
tentar conter
o futuro voraz
não demora a chegar
saber
é coragem
frente a vontade maior
ceder

como viver
horas que não serão suas
os segundos são curtos
mas trazem noites sem fim
piscam os olhos
uma vida inteira

se sabe ir em frente
porque para?
se não há lugar a ir
pra onde foge?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

era, é....será?

Outrora fui
pouco ou muito,
somente era.
No instante agora sou
tudo ou nada,
não deixo de ser.
Um dia ou outro serei.
Só não me venha dizer o que.

domingo, 2 de maio de 2010

resumo

poesias falam por si
não importa o que se escreve
a arte não é ler

para aqueles que sabem ver
precisam os versos dizer tanto ?
precisam os versos dizer ?

sábado, 1 de maio de 2010

a dor vive

abraço - a como velha amiga
sempre por perto
é bem vinda
adverte
leva de mim o que não é meu
a ilusão infiel

conheço - a ao longe
caminha no escuro
silêncio
na pressa de passos perdidos
nos olhos úmidos
carrega
estupor crescente

recebo - a sem surpresa
sem desgosto
é a parte mais fiel
prova viva da entrega
olho - a
temperança
tempestade
olha - me
ceifa sem explicar
cresce sem espaço
consome sem pedir

amanhece, anoitece
flutua, afoga, transborda
não falha
não tarda
não ouve
persiste.

"um dia você vai se livrar desse fantasma"

imagem
voz
da vida uma crença
desacreditada
destruída
fé imponente

espera isana
arrasta
dias e dias
as manhãs amargas
as noites atacam
as tardes ventam

os livros nunca lidos
não perdem páginas
histórias querem existir
as raízes ocultas
entranhas
os caminhos
solitários
aguardam
uma alma se diz
vazia
uma alma se vê
recusa

todos os lados
todo o tempo
fantasmas
delírios

a busca por sombras
nunca
dissipa
fumaça
de chama extinta
oculta
eterna.