“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 18 de abril de 2017

até quando

Ocupo agora o meu inferno particular. Toda a minha irreverência se voltou contra mim, desatinada e furiosa. Sabemos nós duas, eu e a parte minha torpe e surda, que não podemos continuar assim. Não posso mais deitar, sair e beber como se fosse inteira. O curioso é que me apressei, quis calcular quanto tempo dura uma perda, desafiei a dor. Eu achei que eu fosse mais forte, achei que eu seria maior. Calculei errado o tamanho da queda - erro de quem nunca havia pulado antes.
Pois bem, a perda não dura, ela é. Sutil como a memória, lentamente leva tudo. É cruel como olhar as horas e não saber a hora certa.
Eu não tenho mais o que oferecer ao tempo. Não tenho mais barganhas, promessas ou pedidos. Tudo que tenho é essa vontade de desaparecer.
A certeza de que não há história a ser contada é pesada. Eu sei que não há caminho de volta enquanto essa memória existir.
Se você nunca tivesse existido eu teria uma chance. Mas você existe e existir não basta, você fica. A ideia que eu tenho, a roupa que eu tiro, a linha que escrevo. Você não está aqui e isso deveria ser suficiente, deveria ser tudo, mas é só o que eu repito a mim mesma. Você não está aqui.
A perda é o que permanece sem deixar rastros, uma prece sem fim. Não sobram vestígios que reafirmem minha sanidade. Eu quero sair, mas encontrar saída envolve a busca e eu não sei pra onde olhar. A perda é o alívio que eu sinto logo antes de perceber que você ainda está aqui. Abro os olhos e vejo o lugar em que eu não deveria estar. Você está aqui.

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