“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Candeia

Essa noite, ajoelho
e revivo
Ao padecer
Em tudo que em mim
Faz memória e morada

Morrem as histórias
E as lágrimas desmancham
A areia
Em castelos

Morrem os amores
E últimos suspiros
Como se fossem plurais....
Você, mais do que nunca
Sabe-se singular

Mas você também não está mais aqui
Como todo o resto
Enquanto me despeço
Como o apito da partida
E a assinatura da carta

Sei que estou morta 
E fria
E peço perdão
Pelo esboço de mim 
Impresso em você

Quis ser mais
Mas por excesso de zelo
Ou falta de permissão
Eu tive medo de queimar,
chover em cinzas
E repousar em seus ombros

Há muitos anos eu proibi o amor
Aos quatro ventos e todos os céus
Mas além da minha jura de nada
E dos primórdios do medo,
Você foi a hora e o óbvio

Depois de tudo,
O meu maior temor
Eu queimo em razão
E enorme pesar

Você me fez certa
E tão exata
Quando eu queria,
Concisa, desmoronar

Entenda,
Quando você se despediu
Levou as chances e o sol
Deixou a razão, 
A minha lógica
Em continuar só,
Inteira e inerte

Você precisa saber que não sabe
O quanto dói
O quanto eu queria estender as mãos
E revelar o tanto que ergui
A vista que eu vi

Depois de caminhar
Até a pura exaustão
Você foi a vista,
O nado e o fôlego
E eu pude descansar

Eu diria do abraço
E da promessa a me salvar
Mas você acordou
E em desgraça,
Em segredo eu sabia
Ninguém poderia ficar

Nas estrelas havia um espaço
Inúteis os desejos e preces
Ali, só, eu iria morar

Eu te daria as mãos
Mas sei que por força ou acaso
Eu teria de seguir sozinha
 E por mim, 
Iria sem essa parte nula
Que é o todo do grito
Da falta
De pertencer só

Contudo,
Você é razão
Instinto insano, cruel.
Você é o perdão, 
A ausência do ódio
E de qualquer condição. 

Eu acredito em você 
E em tudo que ficou,
Como uma casa que herda
As memórias e a tristeza,
Como o céu que abriga os desejos
E a saudade

Você nunca ficaria
Pelo pedido que eu não faço
E pela sua confusão. 

De joelhos,
Mundo abaixo,
Certeza sem rumo,
Aposta sem êxito,
Prece sem ânimo.

Tive razão e abdico 
Do que mais vier
Nada permanece
Por culpa ou carma
Você foi tudo o que se perde
Quando não há mais nada

Toda a minha história era segredo
E sepulcro
Por mais que eu quisesse
O amanhã chegaria
E eu sabia da hora da despedida

De todos os tempos e terras
Guirlandas de adeus
Você floresceu
Único gravado em pedra
Fica o caminho
Longo como sempre,
Do seu amor velado
Escondido em mim.

Distância exata,
Previsão descarada
Eu sabia da ida,
Mas não da demora.
Sabia que seguiria só
Mas você habita a estrada.

Ao maior encontro
A menor despedida
Desgosto, receio
Infinita gratidão

Eu sabia do fim e do meu talento
Em prever a partida e seguir a esmo

A maior prova
Do que espera além
É o amargor que não cessa
Tudo resume você
Que sempre teria de ir
Eu só sei dizer adeus
E, ainda assim
 Começaria

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