Existem as dores
que vem e vão.
Aquelas que se fazem lembrar
e, contentes,
por satisfeitas
podem dar-se por vencidas.
Por vezes vivi
algo que roubava
segundos e pormenores.
Eram sustos,
e sobrenomes,
sem demora.
Algumas lágrimas
cresceram florestas
e sombras,
úmidas, tórridas,
completas e imperfeitas.
Seguia ainda
reinando em mim.
Cada parte bastava
por moeda própria,
cunhada e que selava
o troco extinto
imperatriz,
solstício,
dias e dias,
eu seria o sol,
o reino,
o repente
e o fim.
Tudo seria justificado,
eu seria a força e o caos
tempestade e temperança.
Os extremos habitariam
e eu existiria
sem prumo,
sem curva,
rainha de mim.
Mas as lendas são feitas
de tudo o que finda,
e embora eu não quebre,
o manto se atira ao fogo.
O que sinto não é dor,
não é fim
e nem sangue
a escorrer pelo cetro
seguro, enfim.
O que sinto é maior
e cabe e abriga
todos os cantos do mar,
cantigas antigas
que insistem em ecoar.
Pode ser que por sentir
e ser só,
eu naufrague sozinha
e reine em paz.
Pode ser que por ser assim,
eu habite o cinza
na nuvem que não chove
e no corpo que não despe
qualquer defesa.
Talvez eu tenha perdido
o que seria de mim.
O amor é um templo,
em que perecem as coisas mais belas,
carentes de tempo
e coragem.
Pode ser que por medo,
ou estupidez,
os meus joelhos rastejem,
e meus olhos laminem
o fio do destino.
As minhas mãos,
estreitas de viagem
e empoeiradas,
abraçam o que resta,
e embalam o meu sono,
cantando:
Não viverás
ao fim de tudo.
Sucumbir é áspero
indigno e ingrato.
Mas finda a revolta
e se a memória migrar,
não viverás
a ver o fim
do seu breve reinado,
como taça que entorna o vinho
roubando a sede dos lábios,
resquício ébrio,
de tudo ausente.
Forte e ferida,
não escondes nada.
És o corte,
a linha,
o sangue,
e o cárcere.
Existem as dores
que nascem apenas,
dotadas do hábito,
da fé.
Sabem-se vencidas,
por retorno ou comunhão,
encantos raros, tão raros
ajoelham-se em pranto
desencarnam em gratidão.
Sobram as adagas
e os venenos.
Espreitam as dores,
não esquecidas,
caminhando sobre a neve,
rastejando sob o chão.
São doces,
tão doces,
fatais.
São crença a rezar
o terço em contas,
envolve o pescoço
e sufoca as preces.
A dor do silêncio
e de tudo que veio
com a coroa do afeto
e do inédito.
Há ainda a dor perdida,
que caminho nenhum há de traçar.
Mas você,
você é a dor que respira.
Dança, vive e roga,
festa em mim.
Você é o limite,
a véspera e o adormecer,
cada linha entre o luto
e onde quer que eu vá.
A luz acesa,
vela e chama
em tempestade.
Noite, dia,
dor liberta,
fértil e febril.
Existe o fim
e o depois.
Você é o restante,
lavrado em ouro,
em brasa,
na pele,
no peito.
A pulso,
resiste.
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