“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Viagem

fiz as malas devagar
durante anos
guardando o que importa

o que doía
o que sorria
embalados
a duras penas

fiz as malas devagar
talvez sempre tenha havido certeza
ninguém iria ficar

era hora da mudança
fiz da soleira da porta
o maior obstáculo
era escuro depois do portão

mas era hora da mudança
 impossível ficar
 mais ainda conter
o que precisa ir embora

não restou tempo
pras suas lágrimas
chovia muito
elas não viriam

por isso, amor
eu fiz as malas noite adentro
como quem esperava poder ficar

não há o que dizer
sobre o breu lá fora
e o seu rosto
virado sempre
pra outro lado

ser quem vai embora
é tempestade
e ser quem fica
é rezar e dormir
sonhando algo diferente

talvez eu não volte mais
ficaram algumas coisas no armário
tanto tempo atrás

e por mais que eu precise ir
como é que se arruma uma vida
devagar


Nenhum comentário:

Postar um comentário