fiz as malas devagar
durante anos
guardando o que importa
o que doía
o que sorria
embalados
a duras penas
fiz as malas devagar
talvez sempre tenha havido certeza
ninguém iria ficar
era hora da mudança
fiz da soleira da porta
o maior obstáculo
era escuro depois do portão
mas era hora da mudança
impossível ficar
mais ainda conter
o que precisa ir embora
não restou tempo
pras suas lágrimas
chovia muito
elas não viriam
por isso, amor
eu fiz as malas noite adentro
como quem esperava poder ficar
não há o que dizer
sobre o breu lá fora
e o seu rosto
virado sempre
pra outro lado
ser quem vai embora
é tempestade
e ser quem fica
é rezar e dormir
sonhando algo diferente
talvez eu não volte mais
ficaram algumas coisas no armário
tanto tempo atrás
e por mais que eu precise ir
como é que se arruma uma vida
devagar
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