são também os rostos
com hora marcada
o recado na porta
a doença no adeus
não é só a ausência
e o meu lado vazio
é também a sombra
de outros lugares
que não posso ocupar
é o selo em cada carta
a se endereçar
é a festa fora de hora
que finda com pernas fracas
sambando sem razão
não foi só você
que entregou os pontos
e a vez
eu também não sei pra onde ir
não são só destroços
essa nesga de nada que fica
é também tudo
que nunca mais serei
é uma roupa que não cabe mais
a casa da infância
as fotos no armário
são as coisas que acumulam
e espaços que encolhem
é o meu juízo
e meu corpo
subindo pelas paredes
o desespero irmão
as músicas
e o que você ouve
não são um pedido
ou memória
e essas lágrimas
amparadas pela mão cansada
tardam em repousar
jorram em nascente
seguem perdidas
não é só você
já não posso segurar
essa corda
no abismo que intercalo
separando o outro lado
de tudo que é nosso
e fere as palmas
sangrando no ar
é a história
e a sola dos pés
antes de você
eu caminhava
e pedra nenhuma
você mudou no chão
poeira
suor
o cansaço era o mesmo
a fabricar essa ilusão
é também o sono
da minha mãe
que não dorme
e o silêncio no véu
da noite
na prataria incompleta da sala
é o casamento desfeito
e os cacos da herança
faltam bules
tampas
memórias
e amor
não
não é só você
e o que eu esculpi
enquanto falávamos
e faltávamos
em conjunto
é o tempo
em que eu nasci
e deixei de crescer
antes a morte
que engolir a seco
embora você seja o sonho
acordo sempre em vão
e é dessa verdade que eu fujo
essa é a desgraça que fito
ao entrar pela porta
que você deixou aberta
e embora
o último a sair
tenha apagado a luz
você foi apenas gatilho
que o dedo puxava no escuro
na ausência de salvação
eu preciso de mais
memória
medo
e solidão
pra lembrar não de você
que não é
nada disso
mas pra me saber no caos
sem virar a cabeça
ou fitar o chão
não é você
a desgraça
a causa
é o que eu preciso habitar
longe e perto de mim
respirar a fumaça
tóxica
lenta
sincera
é enxergar a saída
devorar o meu mundo
pulo em queda livre
mergulhar em imensidão
imergir no pavor
e fazer dele castelo
habitar a escuridão
"The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster." (Elizabeth Bishop)
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