“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

terça-feira, 27 de junho de 2017

Monumento

Desde outro dia
Que finjo não recordar
Visto o mesmo manto preto
E arrasto meu peito oco

Dia após dia
A dor perde o fio
E encontro-me aqui
A amolar a memória
Um corte exato
No mesmo lugar

Mesmo sendo o meu peito
A pedra a refazer o fio
Já não amparo
o que escorre de mim
Na esperança de que
Depois do fim
Venha o vazio

Todas as horas repetidas
Deixam o mesmo recado
Por mais que eu segure
A mesma mensagem
Os mesmos dois gumes
Seguem cortando
A linha que trilho
A pontiagudos passos

Eu não quero falar da ferida
Tampouco abrir minha pele
E exalar o que eu vejo
Por dentro dos olhos
Ainda assim
Noite adentro
Desafio cada soluço
A ser mais forte que eu

Resisto ao silêncio
Curvada sob a estátua
Que ergui sem saber
Fiz-me uma com o chão vermelho
No endereço da ausência

Pedra sobre perda
Ergui o que sustenta
Todas as derrotas
Até que nada se perca
E a lâmina dos hábitos
Enferruje o passado

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