“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

sábado, 10 de junho de 2017

Mães

Eu lia tranquilamente quando ela adentrou a sala com pressa, emitindo susurros zangados. Enquanto guardava as compras e tumultuava minha leitura, ela era ainda a mesma mulher que me ensinou a ler. As mesmas mãos que arrumavam a sala como um furacão e por pouco entornavam meu café, eram as mesmas mãos que haviam recebido esse mesmo livro há anos atrás. Nesse exato momento, como em todos os sábados, ela desenterra fotos e panfletos e cartas empoeiradas e as exibe como um tesouro a mim, que as encaro repetidamente como quem vê um tesouro. Há sempre, sempre, algum detalhe novo no sorriso de minha avó.
Guardadas as fotos, começam os sons do fogão, carregando as dores dessa vida que vemos passar. Ela é ainda a mesma alma, jovem e agoniada, fragmentada em mil formas de adeus.

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