“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Par

Pelo caminho
Vejo dois corpos
Impressos como estátuas
Caminham ou dançam
O limite dos lábios, impreciso
Perdem-se em saudade
E a fusão das almas
Vira pó
Desintegra-se num segundo
Como o tempo que passou

Nada proclama a graça
Com que cessa a existência
Dos amores eternos
Palavra nenhuma descreve
A cor da chama que queima
Depois do fim

Separam-se as mãos
E mais nada se dá
Todos os ecos
Em todos os ares
E vazios no mundo
Anunciam
Serão os corpos
As mãos
Resquícios do tempo
Poeira ao vento

Os lugares mudaram
Carregam agora
As partículas deixadas
Confusas e miúdas
Como cinzas ao mar
Dos dois corpos que ali ficaram
Por nunca mais
Serem os mesmos
Tampouco poderem voltar

Sombra de outrora no chão
Nascem todos os dias
Ardem por todo o luar
Até que nada reste
Senão a imagem desfeita
Pairando estática
Sob os postes
Iluminada e invisível
Na calçada do mesmo lugar

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