“Porque há o direito ao grito. Então eu grito”

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

coração

estive inteira
nessa desventura sem fim
amar a ponto de desistir
de ver seu rosto
como última visão

de todos você foi o último
eu jurei
a me quebrar o coração
por inteiro
como quem rejeita
a mão que só faz
acariciar essas palavras
ingratas de ti

estou cheia
como quem senta a mesa
e sabe não saciar
essa vontade eterna
em teimar de lembrar

era febre
era pulso
essa memória sua
nunca mais
eu direi
da tua boca
do meu perdão

eu preciso do silêncio
se todas as juras se fizeram falsas
eu nunca fingi
perdi o rumo
e valsei
como quem pisa em si

querer amar é uma força
ainda era cedo
era mais que o mundo
mais do que se sabe
ninguém conta essa história

não me restam coisas sóbrias
o que lembra você
é tão passageiro

versos e cheiros
doem como nunca
como o teu cinismo
em insistir no silêncio
esse silêncio que com você
remou pra longe

hoje eu sei
que existir é incessante
injusto
quando a vida é espera
pelo rumo do dia seguinte
em que se esvaem
as certezas dos sorrisos
que sorri pra ti

eu conto uma história
que não narra ninguém
narrar exige verdade
e o sonho foi tão longo
que perdeu-se
no limite do abraço
que acabou

resolvo seguir
mas seguir é certeza
que não resta desde o adeus
despeço-me de mim
admito
já não ando
com minhas próprias pernas
e meus braços cuidavam de ti

não sei das horas
as horas eram o rumo
até você
e hoje não vai chegar

como moda cantada alegre
que um pedaço do meu peito
hoje canta
e brinda a nós dois
como dois
que foram
sem beber

azar
por anos eu ficaria aqui
mas já não posso
cometer os mesmos erros
atirar as mesmas moedas
aos mesmo poços
aos quais cismo a me atirar

tiro de mim
o som da sua voz
abro as janelas
mas a sua paisagem
continua aqui

fiz um jardim
e o cheiro das flores
fez um buquê ingrato
beirando a ilusão
de que padeço

eu quero ser sã
e resolvo entrar
a morada que fiz
foi em parte sua

resta-me sair a rua
mas é carnaval
e eu tinha planos
no ar um único perfume
e pelas vielas
jorram como em artérias
memórias de nossos passos
o meu sangue se perde
nas veias que correm
correm de mim

meu amor
eu já não sei sangrar





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